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“Enterro x-miséria”

José Passarelli

Via José Passarelli | Publicado por Redação | às 02:00:09

Belarmino tinha sido mestre de obras em diversos locais comigo, todas em Mato Grosso do Sul, em Aquidauana, em Miranda, em Campo Grande, em Dourados, em Ponta Porã, em Naviraí, em Três Lagoas, em Itaquiraí, em Corumbá, etc. Tinha um conhecimento profundo em edificações, muito do que sei aprendi com ele. Quando cursava engenharia civil, a partir do terceiro ano comecei a fazer estágio na construtora Nunes Galvão-SP, pois tinha um colega de turma que era filho do empresário Antônio Leme Nunes Galvão, proprietário da empresa e na época o pai dele era presidente do São Paulo FC, quando íamos jogar com o time da universidade, vestíamos sempre o uniforme completo do São Paulo FC.
Pois bem, certa vez estava em meu Escritório Técnico JP de cálculo estrutural estudando plantas de armadura, ferragens positiva, negativa, revendo os cálculos de de vigas, pilares e lajes, elétrica, hidráulica, dosagem de concreto, corpos de provas, etc. e minha secretária bateu na porta, entrou e disse: - Passarelli? Tem um rapaz querendo falar com você! Eu era novo, tinha 25 anos. Mandei ele entrar. Ele entrou e eu disse: - Bom dia! Sente-se! Quer falar comigo? Ele respondeu: - Sim doutor! Meu pai Belarmino que foi seu mestre de obras sofreu um infarto violento e veio a óbito! Fiquei triste, pois gostava muito de Belarmino. Ele tinha 67 anos, cancelei todas as minhas atividades, peguei meu carro e segui para o velório no centro da cidade.
Belarmino estava com o rosto verde e roxo no caixão, realmente foi fulminante o infarto. Encerrado o velório, o caixão foi fechado e seguimos para o cemitério que ficava após o Parque das Primaveras. Aluguei uma Kombi para levar parte da família e segui no meu carro, eu era o último de um total de 9 veículos. O féretro seguia pela Avenida Calógeras à velocidade de 20 km/h, quando chegou em baixo do pontilhão da UFMS o carro fúnebre parou. Achei estranho e pensei alto: - Ou quebrou o automóvel ou Belarmino está vivo, acordou!
Desci para saber, fui de encontro ao agente funerário e perguntei: - Por que parou? E ele sério me disse: - O Plano da família do defunto só cobre até aqui a quilometragem! Eu puto da cara retruquei: - Mas como assim? Vamos deixar o morto aqui porra? No que ele disse: - Para continuar até o cemitério têm que dar mais R$ 1200,00, senão a procissão fúnebre não prossegue! Verifiquei os papéis do Plano que estavam na bolsa da viúva chorosa, dona Manoelita! E o pior aconteceu, tinha uma cláusula que dizia justamente sobre isso, era verdade. Aí começou a choradeira total, alguns choravam, mas nem lágrimas tinham. AFF… Como especialista em morte, o que aprendi com meu pai médico, assumi o comando do enterro. Disse aos familiares: - Vamos fazer uma vaquinha senão não terá enterro! Teremos que levar Belarmino de volta. Estava um sol de 40°C. Doei R$ 500, 00 e fui pegando um pouco de cada um para inteirar o total.
Prosseguiu o féretro, chegamos ao cemitério às 17h. A esposa do Belarmino chorando copiosamente, pediu para abrir o caixão para se despedir, no que foi atendida. Quando ela viu meu eterno mestre de obras só de meias, lembrou-se que ele tinha um sapato novo e pediu que quando morresse fosse enterrado com ele. O filho foi buscar em casa, lá no Bairro Santo Amaro, foi até rápido. Começava a escurecer quando ele voltou. Aí veio o pior! a viúva me pediu para calçar os sapatos no Belarmino, segundo ela, por que ele gostava muito de mim.
Como eu iria negar com todo mundo chorando e me observando? Tentei colocar os sapatos marrons no Belarmino, mas como os pés dele estavam muito inchados não calçavam.
Enfim, resolvi cortar o encosto dos calcanhares e aí deu certo e finalmente enterramos o Belarmino.
Fiquei estressado uma semana com esse episódio, mas fiz tudo que podia pelo amigo querido.

PS: x-miséria é o nome que damos na sauna do Rádio Clube em Campo Grande-MS ao lanche de pão francês com ovo!

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