
| Créditos: Reprodução/CEBI
Hoje é um daqueles dias que pedem um minuto de silêncio que, na verdade, deveria ser um ano inteiro de voz. Um dia para falar do que mais cala: a dor que isola, o desespero que sussurra mentiras ao ouvido, a sombra que tenta apagar todas as cores da vida. Hoje é o Dia de Prevenção ao Suicídio, e não há tema mais urgente do que lembrar que nenhuma escuridão é permanente e que buscar ajuda não é um sinal de fraqueza, mas a maior prova de coragem que um ser humano pode dar.
Há quem imagine que estar em um país de sol e alegria como o Brasil seja uma vacina contra a tristeza profunda. Não é. A dor não escolhe nacionalidade, não vê cor de pele, não checa a conta bancária. Ela é um labirinto escuro que pode se formar dentro de qualquer um de nós. A grande verdade, porém, é que neste mesmo Brasil, em meio a tantos desafios, existem redes de apoio, mãos estendidas, pontes construídas para ninguém ter que atravessar sozinho o seu labirinto mais difícil.
O Brasil acordou para a causa. O Centro de Valorização da Vida (CVV), que já existe há mais de 60 anos, é a ponta mais conhecida e fundamental dessa rede. Um telefone – o 188 –, um chat, um e-mail. Gratuito, sigiloso, 24 horas por dia, 7 dias por semana. Do outro lado da linha, não há um juiz, não há um conselheiro distante. Há um voluntário treinado apenas para ouvir. Simples assim. Ouvir. Algo que parece tão raro nos dias de hoje. Falar, desabafar, colocar para fora os monstros que ecoam na mente é o primeiro e mais vital passo para desarmá-los.
Mas a rede é mais ampla. O SUS (Sistema Único de Saúde) oferece suporte através das Unidades Básicas de Saúde (UBS) e dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Estes últimos são especializados no cuidado de pessoas com sofrimento ou transtorno mental, incluindo aquelas com ideação suicida. É um direito. Basta procurar a unidade mais próxima e buscar acolhimento. Existe também a UPA 24h, para casos de crise aguda, onde se pode receber o primeiro atendimento.
Ainda falando em números, o Ministério da Saúde mantém o número 196 para emergências de saúde pública, que pode orientar em momentos críticos. E, é claro, em uma situação de risco iminente, ligar para o 192 (Samu) ou 190 (Polícia Militar) pode ser a ação necessária para salvar uma vida.
Saber que esses meios existem é crucial. Mas mais crucial ainda é a mensagem que fica: você importa. Sua história não acabou. Aquilo que você sente hoje – o vazio, a angústia, a sensação de não ver saída – não é uma sentença, é um sintoma. E sintoma se trata.
A vida é uma tapeçaria complexa, feita de fios de alegria e de tristeza, de sucesso e de fracasso, de luz e de sombra. A sombra, por mais densa que seja, não é a tapeçaria toda. Ela é um pedaço. Há sempre um fio de luz, por mais fino que pareça, esperando para ser puxado. Puxar esse fio pode ser contar para um amigo, pode ser ligar para o 188, pode ser marcar uma consulta no posto de saúde. Pode ser dar mais um dia de chance para si mesmo.
Valorizar a vida não é ignorar a dor, mas reconhecer que ela é parte de uma jornada maior. É lembrar do cheiro da chuva no asfalto quente, do abraço que aquece, da música que arrepia, do sabor de uma comida que remete à infância. São pequenos fios de luz. Eles estão lá.
Neste dia e em todos os dias, que possamos ser mais gentis, mais ouvidos, mais presentes. Que possamos perceber os sinais no outro e ter coragem de perguntar “está tudo bem?” e, principalmente, ter paciência para ouvir a resposta verdadeira. E se você é quem está no labirinto, ouça este sussurro em meio ao grito da dor:
Hoje, mais do que nunca, o convite é para escolher viver. Porque viver é resistir, e resistir é um gesto de amor – consigo mesmo e com aqueles que nos cercam.
Por Alcina Reis






