
Vista aérea do Parque de Exposições Laucídio Coelho, na quinta-feira, 9, abertura da Expogrande | Créditos: Foto: José Henrique Theotônio | Divulgação
Durante décadas, a Expogrande foi apresentada como um símbolo da cultura sul-mato-grossense: um espaço de encontro entre campo e cidade, tradição e entretenimento, negócios e lazer popular. Mas, aos poucos — e agora de forma escancarada em 2026 — o evento parece ter mudado de público-alvo.
Na teoria, ainda há esforço para manter a aparência de inclusão. A entrada no Parque de Exposições é gratuita na maior parte dos dias, com cobrança restrita a horários específicos, como sextas e sábados à tarde, quando o ingresso gira em torno de R$ 20 . Também há cadastro prévio e organização digital, sob o argumento de segurança e modernização.
Na prática, porém, o custo de participar vai muito além do portão de entrada.
O primeiro impacto vem antes mesmo de pisar no evento: o estacionamento. Valores que chegam a R$ 50 tornam o simples ato de ir à feira um gasto considerável — e isso sem contar alternativas informais ao redor, que também cobram valores elevados. Esse tipo de cobrança, que já era observado em edições anteriores, se mantém como um obstáculo concreto para famílias de renda mais baixa .
E o problema não para por aí.
Dentro da feira, os preços de alimentação, bebidas e atrações seguem a lógica de grandes eventos comerciais, não de uma festa popular. Shows nacionais, estrutura sofisticada e espaços segmentados reforçam um ambiente cada vez mais voltado a quem pode pagar — não necessariamente a quem sempre fez parte da tradição da exposição.
É uma mudança silenciosa, mas profunda.
A Acrissul, organizadora do evento, destaca o volume de negócios e a importância econômica da feira, que pode movimentar centenas de milhões de reais. E de fato, a Expogrande continua sendo uma potência do agronegócio, reunindo leilões, tecnologia e investidores.
Mas essa vocação econômica parece ter engolido sua função social.
O que antes era passeio de família, com acesso relativamente democrático, hoje exige planejamento financeiro. O trabalhador que queria levar os filhos para “ver os animais e dar uma volta” agora precisa calcular: combustível, estacionamento, comida, eventuais ingressos… e a conta rapidamente sai do controle.
A pergunta que fica é simples: ainda é uma festa do povo?
Ou a Expogrande virou um grande showroom do agronegócio, com entretenimento como vitrine — mas com ingresso indireto cada vez mais caro?
Quando o acesso começa a excluir, mesmo que de forma indireta, o evento deixa de ser coletivo. E talvez o maior risco não seja o preço alto em si, mas a naturalização disso: aceitar que tradições populares passem a ser privilégio.
Porque quando o povo deixa de caber na festa, ela perde mais do que público — perde sentido.
Por Alcina Reis






