
O título não é original. Ele é um desejo antigo, um sussurro que corre nas filas do SUS, nas paradas de ônibus abarrotadas, nos impostos que saem do salário antes mesmo de a gente contar o que sobrou para o mês. É a pergunta que não cala: por que eles e nós?
"Eles", aqui, não são uma abstração. São as "autoridades". Um termo amplo que abrange desde altos cargos do executivo, legislativo e judiciário até assessores bem posicionados na máquina pública. E a distância entre "nós" e "eles" não é medida apenas em cargos ou responsabilidades, mas em quilômetros de regalias pagas com o suor alheio.
Enquanto o cidadão comum debate o orçamento do mês para ver se troca o óleo do carro ou compra um remédio mais completo, a vida das tais autoridades é um fluxo contínuo de benesses que o contribuinte sequer sonha. Consultas os sites oficiais, os diários oficiais. Lá estão: os auxílios-moradia para quem já tem uma ou mais residências, os auxílios-paletó para custear ternos de grife, os cartões corporativos que bancam desde um jantar "de trabalho" até despesas pessoais nebulosas.
A saúde do povo é o pavilhão lotado, a espera por meses por uma especialidade, o remédio que não tem no posto. A saúde deles é uma rede particular de alto luxo, com atendimento imediato e sem custo direto. O povo enfrenta horas no transporte público sucateado. Eles deslizam em navios de luxo em "missões oficiais", hospedam-se em suítes de hotéis cinco estrelas, e têm à disposição frota de carros oficiais com motorista – um detalhe: isentos de IPVA, é claro.
A justificativa é sempre a mesma: "necessidade funcional". Será que a função de governar, legislar ou julgar exige necessariamente um estilo de vida nababesco, blindado da realidade que afeta 99% da população? O contribuinte paga a conta duas vezes: primeiro, com o suor do seu trabalho para bancar esses privilégios através de uma carga tributária que consome quase metade do que produz. Depois, ao abrir mão de serviços públicos de qualidade porque o dinheiro que poderia ir para educação, saneamento e segurança escoa por essas rachaduras de luxo.
O povo "rala e muito" para conseguir um carro popular, um plano de saúde meia-boca, uma viagem de férias para a praia vizinha. Conquista com esforço, e ainda paga imposto em cima de cada uma dessas conquistas. Eles recebem carros, casas, saúde e viagens de presente. Isentos. O tributo que não incide sobre seus benefícios incide em dobro sobre o arroz e o feijão do cidadão.
O dia da igualdade de tratamento, portanto, não é aquele em que o povo será levado para hotéis cinco estrelas. Isso é uma fantasia. O dia da verdadeira igualdade será aquele em que essas regalias forem extintas, consideradas um absurdo anacrônico. Será o dia em que um político, um ministro, um juiz, sentirão na pele o peso de um imposto, a dificuldade de marcar uma consulta, o desconforto de um transporte público inseguro.
Só assim, quando a experiência de governar for a mesma de ser governado, é que a tal "autoridade" deixará de ser uma casta distante e passará a ser, de fato, uma representação do povo. Até lá, o privilégio continuará sendo a língua oficial do poder, e a pergunta "por que eles e nós?" ecoará, cada vez mais alta, das filas, dos ônibus e dos pavilhões.
Por alcina reis






