Policiais militares de MS enfrentam auxílio defasado, salários apertados e carreira travada

O policial militar que atua na linha de frente em Mato Grosso do Sul iniciou 2026 com o orçamento apertado e o auxílio-alimentação sem reajuste há mais de uma década. Atualmente, os praças recebem R$ 100 mensais de benefício, valor fixado pela Lei Complementar nº 127/2008 e mantido sem atualização desde 2013.

Na prática, considerando uma média de 15 plantões por mês, o servidor dispõe de aproximadamente R$ 6,66 por turno para alimentação. Segundo a Associação de Cabos e Soldados da Polícia Militar e Bombeiros Militares de Mato Grosso do Sul, o valor não cobre sequer um lanche básico e acaba sendo simbólico — o que representa cerca de R$ 3,33 por dia, se diluído ao longo do mês comercial.

A entidade afirma que a ausência de correção prejudica diretamente os profissionais, sobretudo porque a carreira exige dedicação exclusiva e proíbe o exercício de outra atividade remunerada. Com isso, muitos militares precisam custear do próprio bolso a alimentação durante o serviço.

Orçamento bilionário e impacto na base

O cenário ocorre em um contexto de orçamento elevado para a segurança pública. De acordo com a Secretaria de Estado de Governo e Gestão Estratégica de Mato Grosso do Sul, a previsão de receita para a Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública de Mato Grosso do Sul é de R$ 2,030 bilhões, sendo cerca de R$ 1,7 bilhão destinado aos militares.

No entanto, o detalhamento sobre quanto desse montante chega efetivamente à folha de pagamento de soldados e cabos que atuam nas ruas não é especificado no orçamento.

Quanto ganha um soldado?

Segundo dados da Segov, um soldado recém-formado inicia a carreira com subsídio bruto de R$ 5.727. Após descontos obrigatórios — como Imposto de Renda, previdência e plano de saúde — que podem chegar a cerca de 45%, o valor líquido cai significativamente.

De acordo com a ACS-MS, o salário líquido médio não alcança R$ 3 mil para quem não recebe adicional por comando de equipe. A associação defende que o ideal seria uma remuneração acima de R$ 7.500 líquidos, considerando a carga horária extensa, o risco diário da atividade e a impossibilidade de exercer outra ocupação remunerada.

Em comparação regional, o Estado aparece atrás de vizinhos como Mato Grosso e Goiás em termos de remuneração inicial. Apesar de ocupar a 6ª posição no ranking nacional de investimento per capita em segurança pública (R$ 645,76 por habitante), a corporação sul-mato-grossense enfrenta desvantagem salarial na região.

Promoções travadas e falta de fardamento

Outro problema apontado pela categoria é a dificuldade de progressão funcional. Cerca de 600 cabos formados em 2018 já cumprem os requisitos para promoção a 3º sargento, mas aguardam abertura de vagas na Lei de Fixação de Efetivo.

Segundo a ACS-MS, a nova proposta enviada pelo governo à Assembleia Legislativa retira a validade da lei anterior para evitar novos “apagões”, mas não cria novas vagas, o que mantém o entrave estrutural.

A precariedade também atinge o fardamento. Soldados formados em 2024 receberam apenas um conjunto inicial de uniforme, sem previsão divulgada para entrega completa de fardas e coturnos.

A reportagem procurou a Sejusp para detalhar a destinação dos recursos, mas não obteve resposta. A Secretaria de Estado de Administração de Mato Grosso do Sul informou que as demandas devem ser tratadas pela Segov. Até o momento, não houve manifestação oficial sobre reajustes ou atualização do auxílio-alimentação. O espaço segue aberto para esclarecimentos.

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