“O senador, a Suécia e o exército de crachás”

| Créditos: IA /Conteúdo MS


Há comparações que parecem piada de internet, dessas que a gente lê e logo pensa: "isso não pode ser verdade". Mas então alguém resolve conferir os números e descobre que a realidade, mais uma vez, resolveu humilhar a ficção.

Imagine um senador brasileiro. Ao seu redor, uma verdadeira pequena empresa: assessores legislativos, políticos, administrativos, de comunicação, secretários, motoristas e uma infinidade de cargos que fazem o gabinete funcionar. Dependendo da composição adotada, a equipe pode chegar a dezenas de pessoas.

Agora olhe para a Suécia, país frequentemente lembrado por sua eficiência administrativa. Lá, os parlamentares trabalham com uma estrutura muito mais enxuta, compartilhando serviços técnicos e administrativos. O foco está menos na multiplicação de gabinetes e mais na profissionalização do apoio institucional.

A pergunta então surge quase naturalmente: por que um único parlamentar brasileiro precisa de uma estrutura capaz de rivalizar com a de um parlamento inteiro de um país desenvolvido?

A resposta oficial costuma ser que o Brasil é continental, possui 27 unidades federativas, uma população gigantesca e uma complexidade política que exige ampla capacidade de atendimento aos eleitores. É um argumento razoável. Um senador representa milhões de pessoas espalhadas por cidades distantes e precisa acompanhar temas dos mais variados.

Mas existe uma diferença entre estrutura e exagero.

Quando a máquina cresce a ponto de exigir um organograma digno de uma multinacional, o cidadão começa a desconfiar que parte dessa engrenagem deixou de servir ao interesse público e passou a alimentar a própria burocracia.

A comparação com a Suécia não serve para dizer que um modelo é perfeito e o outro, um desastre. Países têm histórias, culturas e necessidades diferentes. Mas ela escancara uma questão que deveria ser permanente em qualquer democracia: qual é o tamanho adequado do Estado para cumprir sua função sem se transformar em um fim em si mesmo?

O problema talvez não esteja apenas no número de assessores. Está na sensação de que, enquanto a tecnologia reduz equipes em empresas privadas, digitaliza serviços públicos e simplifica processos, a política parece seguir a lógica inversa, criando novas camadas de cargos para resolver problemas que ela mesma produz.

No fim das contas, o brasileiro talvez não queira que seus representantes trabalhem sozinhos, nem sentado em uma mesa improvisada com um notebook no colo. Mas certamente gostaria de entender por que, em pleno século XXI, algumas estruturas políticas ainda parecem acreditar que eficiência se mede pela quantidade de crachás circulando pelos corredores.

E talvez essa seja a maior ironia da história. A Suécia construiu um sistema baseado na confiança de que o político é um servidor público. O Brasil, muitas vezes, ainda parece acreditar que um político só consegue servir ao público se vier acompanhado de um pequeno batalhão.

E o contribuinte, que financia toda essa operação, continua olhando a conta e fazendo a pergunta mais sueca possível: isso tudo era mesmo necessário?                                                       
Por Alcina Reis

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