“O Ritmo do Agora”

| Créditos: IA /Conteúdo MS


Há uma certa melancolia que chega com o fim do ano, um balanço natural que nos convida a parar. Ontem, mergulhei nesse sentimento ao assistir “Minha Fama de Mau”. A cinebiografia de Erasmo Carlos é mais que a trajetória de um ídolo; é uma viagem no tempo. Um tempo de ritmos diferentes, de esperas que eram parte da vida, de famílias aglomeradas no mesmo sofá, não por obrigação, mas pelo simples imã da presença.

E no meio dessa nostalgia, um verso antigo daquele homem sábio começou a ecoar dentro de mim, como um conselho esquecido em uma gaveta: 

“Quem espera que a vida seja feita de ilusão, pode até ficar maluco ou morrer na solidão.”

A frase me pegou desprevenida. Ela não é um lamento; é um diagnóstico. E o remédio que ela mesma prescreve veio em seguida, claro e direto: 

É preciso saber viver.

Saber viver. Parece tão óbvio, não é? Mas olhe ao redor. O que temos feito com nosso tempo? Nossa vida foi sequestrada por uma urgência artificial. Vivemos em um turbilhão de informações, conectados a tudo e a todos, exceto à pessoa ao nosso lado no elevador, ao sabor do café pela manhã, ao próprio cansaço que merece um descanso de verdade, e não apenas mais distração. Trocamos a conversa pelo comentário, o abraço pela reação, a experiência pelo registro. Corremos tanto para capturar o instante que deixamos de habitá-lo.

Assistir a Erasmo relembrar sua história – as ruas de baixo, os primeiros acordes, a energia crua de um Brasil jovem – foi como um choque de realidade. Aquilo era vivo. Era quente. Era feito de gente, de suor, de ensaios em garagens, de erros e acertos encarados de frente, sem filtro. E me perguntei: 

onde ficou nosso calor? Nossa coragem de errar? Nossa paciência para construir algo que dure mais que 24 horas no feed?

Esta época do ano nos convida a essa pausa. Não a uma pausa para planos grandiosos e metas inatingíveis, mas a uma pausa simples, quase banal: um suspiro fundo. Um olhar pela janela. Uma noite de silêncio, sem podcasts, sem séries, apenas o som da própria casa. É um convite a lidar com o real – com o cansaço real, com a alegria real, com o conflito real que precisa ser resolvido com palavras e não com emojis.

É um momento de escolha, talvez a mais importante: continuar surfando na superfície ilusória, ou mergulhar na profundidade, por vezes difícil, mas sempre autêntica, da própria existência. A ilusão é sedutora, promete atalhos e prazeres sem consequências. Mas ela é a estrada mais certeira para a solidão. A solidão de estar em meio a uma multidão digital e se sentir invisível. A solidão de não reconhecer a si mesmo por trás das personas criadas.

Porque a vida, a verdadeira, não é feita de projeções. É feita de matéria. De encontros que fazem o coração disparar – de alegria ou de medo. De perdas que doem no corpo. De conquistas que sabem a vitória. É suja, imprevisível, dura e maravilhosamente bela em sua fragilidade.

Então, caro leitor, eu lhe peço, nesta reta final do ano: faça uma pausa. De verdade. Desligue um pouco o mundo externo para se reconectar com o seu. Chame quem você ama para fazer nada, juntos. Ouça uma música antiga que mexa com sua memória afetiva. Deixe o telefone em outro cômodo. 

Sinta o tédio, ele é criativo. Sinta a saudade, ela é humana.

Não espere que a vida seja um espetáculo pronto para seu consumo. Ela é um verbo, não um sustantivo. Ela precisa ser vivida. Ativamente, conscientemente, corajosamente.

E para isso, não há manual, não há app, não há hack. Há apenas um lembrete, cantado há décadas com a voz áspera de quem sabe das coisas: 

é preciso saber viver!

Alcina Reis

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