💔 O Mapa da Dor e o 34º Grito

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Em Mato Grosso do Sul, a frieza dos números estilhaça a tranquilidade do noticiário: 34 feminicídios. Trinta e quatro vidas transformadas em estatística, 34 histórias interrompidas pela violência de gênero. A notícia mais recente, um marco sombrio, nos lembra da tragédia íntima e inaceitável: uma mãe morta a facadas pelo próprio filho, em um crime que ecoa a misoginia estrutural de nossa sociedade e que se enquadra na qualificação brutal do feminicídio.

Mas se a dor de Campo Grande é pungente, a comparação com outros estados mostra que a chaga da violência contra a mulher tem raízes profundas e alarmantes em todo o país, especialmente em nossa região.

O Distrito Federal, por exemplo, vizinho geograficamente e socialmente complexo, já acumulava pelo menos 25 casos nos dez primeiros meses do ano, superando os registros do ano anterior. O vizinho Mato Grosso, em um recorte ainda mais apertado (primeiro semestre), já contabilizava 28 mulheres assassinadas.

À primeira vista, o número de 34 em MS pode parecer pequeno quando comparado a um gigante populacional como São Paulo, que no ano registrou 182 ocorrências. É aqui que as cifras se tornam mais traiçoeiras e perigosas, porque elas mascaram a realidade.

O crime de feminicídio não pode ser medido apenas pelo seu valor absoluto, mas pela sua taxa por 100 mil habitantes. E é nessa métrica que a Região Centro-Oeste – onde se situam Mato Grosso do Sul e o Distrito Federal – historicamente sustenta o título infame de ser a região com a maior taxa de feminicídios do Brasil. Nossos números, mesmo que menores em volume puro, representam uma proporção de morte por mulher muito mais alta do que a média nacional. Não é apenas uma questão de ter mais ou menos casos, mas de onde a mulher está em maior risco de ser morta pelo simples fato de ser mulher.

O Anuário da Segurança Pública revela que o Brasil já chorava 718 feminicídios apenas no primeiro semestre. Cada caso é o fracasso de uma rede de proteção, a falha de um Estado e a inação de uma sociedade.

Os 34 em Mato Grosso do Sul, os 25 no DF e os 28 em Mato Grosso, não são meros pontos em um mapa. São filhas, mães, irmãs, profissionais, com sonhos e futuros roubados. São os 34 gritos de alerta que exigem mais do que notas de repúdio. Exigem políticas públicas efetivas, educação de gênero nas escolas, celeridade na Patrulha Maria da Penha e, acima de tudo, uma mudança cultural que desmonte a mentalidade de posse e violência que insiste em ceifar vidas em pleno século XXI.

Enquanto a taxa de feminicídios no Centro-Oeste permanecer a mais alta, não haverá paz para nenhuma de nós. O número 34 em MS é apenas o lembrete trágico de que a luta pela vida é diária, urgente e não pode esperar pela próxima contagem.


Por Alcina Reis

Jornalista Alcina Reis | Créditos: Conteúdo MS

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