” O Doce Senhor e a Sede da Alma”
- porAlcina Reis
- 24 de Agosto / 2025
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Há um verso que ecoa na voz suave de George Harrison, um lamento que é também um desejo: “I really want to see you, my Lord”. “Eu realmente quero te ver, meu Senhor”. É uma busca íntima, um anseio da alma que dispensa intermediários. É o indivíduo, nu e cru em sua humanidade, estendendo os braços para o divino. Harrison, em sua sabedoria, não ergueu um templo; ele entoou um mantra, fundindo “Aleluia” e “Hare Krishna” numa única verdade: a sede por Deus é universal e intransferível.
Mas olhe ao redor. O que fizemos com esse anseio sagrado? Transformamos a busca solitária e pura num espetáculo coletivo. Empacotamos a fé, colocamos preço na esperança e erguemos impérios de concreto e ouro onde deveriam habitar apenas silêncio e reverência. A religião, que deveria ser o caminho, tornou-se o negócio. A fé, que deveria ser o sustento, tornou-se o comércio. Exploramos o medo, vendemos a salvação e esquecemos o essencial:
Deus é a igreja que habita em você.
E o pior: sequestraram o nome de Deus para a arena política. Homens que deveriam temer ao Senhor, blasfemam ao misturar política com religião. Usam a fé como isca, citam trechos bíblicos distorcidos para atrair votos, vestem-se com o manto da piedade para esconder ambições torpes.
Corra! Corra de candidatos que transformam o púlpito em palanque e a fé em plataforma eleitoral. Eles não buscam salvar almas; buscam conquistar poder.
São os mesmos mercadores que Cristo expulsou do templo, agora trajando terno e sorriso fotogênico.
Eles te dizem que você precisa do templo, do pastor, do dízimo, do ritual. Precisamos, na verdade, é de Deus. Precisamos desse farol interior que não se apaga com a queda do poder, que não fraqueja com a instabilidade do mundo. Precisamos de uma âncora que nos impeça de naufragar na onda furiosa da incerteza, da dor, da solidão. Ter um Deus que nos guie não é sobre seguir regras cegamente; é sobre ter uma bússola moral que não oscila com os ventos do interesse. É sobre ter um amparo que não te abandona quando as portas das igrejas se fecham e os políticos de plantão viram as costas.
É esse Deus, o doce Senhor da canção, que oferece a resiliência para suportar o mundo. Ele não promete riquezas ou uma vida livre de problemas. Ele oferece sustento para a alma. É a força que você encontra no silêncio da madrugada, a coragem que surge do fundo do poço, a paz que inexplicavelmente acalma o coração em meio ao caos.
É a certeza de que, mesmo que tudo desabe, você não está sozinho.
Este domingo, como não é apenas um dia de descanso. É um convite. Um intervalo sagrado para você desviar o olhar das prateleiras abarrotadas de promessas falsas, dos palanques blasfemos, e mirar para dentro. Refletir sobre a importância de Deus em sua vida é lembrar que você não precisa de uma instituição ou de um político messiânico para encontrá-Lo. Você precisa fechar os olhos, silenciar o barulho do mundo e sussurrar o seu próprio “eu realmente quero te conhecer”.
Porque no final, a verdadeira igreja não tem placas, não cobra entrada, não faz campanha e não exibe contas bancárias. Ela reside no átimo mais profundo do seu ser. É ali, nesse santuário inviolável, que o doce Senhor te espera. Não para explorar sua culpa, mas para iluminar seu caminho. Não para vender a salvação, mas para oferecer, gratuitamente, a paz.
Por Alcina Reis

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