O delírio imperial de Trump e o silêncio covarde do mundo

| Créditos: IA /Conteúdo MS


Há frases que não deveriam sair da boca de nenhum chefe de Estado. E há outras que, quando saem, deveriam provocar indignação imediata, reação diplomática em cadeia e um freio institucional à altura da gravidade. Mas quando Donald Trump diz que “uma civilização inteira morrerá esta noite”, o planeta assiste, comenta, repercute — e segue adiante como se estivesse diante apenas de mais um surto verbal do homem que transformou a irresponsabilidade em método de governo.

E é justamente aí que mora o perigo: o mundo parece ter se acostumado ao absurdo. Trump fala como quem brinca com fósforos sobre um barril de pólvora, como se povos inteiros fossem peças descartáveis no tabuleiro de sua vaidade geopolítica. Não é retórica dura. Não é bravata de campanha. Não é “jeito Trump” de falar. É a banalização pública da ameaça em escala civilizatória. Quando um presidente trata a possibilidade de devastação como instrumento de pressão, o que está em jogo já não é apenas diplomacia — é humanidade.

Como pode um ser assim, tomado por uma espécie de messianismo bélico, seguir se comportando como dono do mundo? Como pode decidir quem vive, quem cai, quem deve se curvar, quem merece existir? E mais grave: como pode ainda haver tanta gente poderosa disposta a normalizar isso? O problema não é só Trump. O problema é o ecossistema de silêncio, conveniência e medo que permite que ele continue testando os limites do horror sem que apareça alguém, ou alguma instituição, capaz de lhe dizer com firmeza: daqui você não passa.

Porque a fala é gravíssima não apenas pelo conteúdo, mas pelo símbolo. Um governante não ameaça “civilizações”; um governante, no mínimo civilizado, trabalha para evitar que elas desmoronem. Mas Trump opera na lógica do império ferido: se não obedecem, esmagam-se; se resistem, apagam-se; se discordam, demonizam-se. É a política externa transformada em chantagem de cassino, com bombas no lugar de fichas.

E o mais assustador é perceber que esse tipo de linguagem não surge do nada. Ela é filha direta de um tempo em que líderes autoritários descobriram que o excesso compensa. Quanto mais brutal a fala, mais manchete. Quanto mais grotesca a ameaça, mais centralidade. Quanto mais desumano o discurso, mais ele sequestra a atenção do mundo. Trump entendeu isso cedo: no espetáculo da barbárie, quem grita mais alto quase sempre domina a cena.

Só que há momentos em que o mundo precisa parar de assistir e começar a reagir.

Porque hoje é o Irã. Amanhã pode ser qualquer outro povo transformado em alvo da megalomania de quem confunde poder com licença para destruir. E se a comunidade internacional continuar tratando declarações desse porte como “mais uma polêmica de Trump”, estará ajudando a empurrar a política global para um estágio ainda mais sombrio — aquele em que ameaçar o extermínio deixa de ser escândalo e vira rotina.

No fim, talvez a pergunta mais incômoda não seja apenas “como Trump ainda faz isso?”
Mas sim: por que tanta gente ainda deixa?

Por Alcina Reis

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