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"O Alquimista de Esquina"
Claro que não é novidade. A invenção da falsificação é tão antiga quanto a própria bebida. O brasileiro aprendeu cedo a “ajeitar” rótulo, cor e até sabor — tudo em nome do lucro fácil e do jeitinho. O que é novo agora não é o crime, é a descoberta do metanol, esse vilão invisível que, por décadas, talvez tenha sido o responsável por mortes mal explicadas.
E viva a indústria da saúde, que — num passe de mágica — descobriu o antídoto, o protocolo, o alerta, tudo ao mesmo tempo. Quando há manchete, há ação. É sempre assim: o país parece acordar só depois que a tragédia ganha nome, rosto e número.
Em Mato Grosso do Sul, a fronteira sempre foi vitrine de bons rótulos — e, infelizmente, também de falsificações que atravessam com a mesma facilidade. Os produtores sérios, os que cumprem a legislação, levam anos — anos! — para alcançar padrões, pagar registros, seguir normas sanitárias e bancar uma cadeia produtiva que respeite a lei. E de repente aparece um alquimista de esquina com diploma do Google: mistura qualquer coisa no fundo do galão, corta onde não deve e sabota o trabalho de quem faz tudo certo. Resultado? A saúde de uma nação inteira comprometida por uma mistura barata e mortal.
Não é só questão de polícia: é falha de prevenção. Quantos casos no passado foram arquivados como “intoxicação alcoólica” quando, na verdade, havia metanol por trás? Quantas famílias enterraram parentes sem que a causa verdadeira jamais fosse investigada? Só quando vêm as manchetes é que o Estado se mexe — força-tarefa, nota técnica, exame laboratorial, blitz nos mercados. A máquina pública desperta com o susto, mas deveria funcionar antes.
Os “espertinhos” que falsificam acham que enganaram só o consumidor; enganaram o país. Enquanto houver mercado para bebida barata e patrulha de fiscalização fraca nas estradas e nos botecos das frentes, o risco persiste. Agora, com investigações e punições à vista, a festa dos falsificadores pode acabar — ou, ao menos, ficar mais cara.
Se a novidade é o metanol, que sirva de lição: fiscalizar precisa ser rotina, não de manchete. E quem levanta o copo, que faça isso sabendo o que tem dentro — porque nem todo brinde termina em risada.
O Brasil, infelizmente, especializou-se em agir sob o choque da tragédia, nunca na prevenção silenciosa.
A sensação é de que estamos fechando a porteira só depois que o gado todo fugiu.
A novidade não é o crime. A novidade é que, finalmente, alguém resolveu olhar para ele.
Por Alcina Reis

Jornalista Alcina Reis | Créditos: Conteúdo MS






