Jogos e redes sociais acendem alerta sobre vício digital entre crianças e adolescentes

Com os olhos fixos na tela, o adolescente Luiz Miguel, de 14 anos, atravessa mundos virtuais dentro do Roblox enquanto novas sugestões de jogos aparecem continuamente. O que começa como uma partida rápida muitas vezes se transforma em horas diante da tela — uma situação cada vez mais comum em lares brasileiros e que vem despertando preocupação entre especialistas.

Miguel começou a jogar por volta dos 12 anos, após assistir a vídeos de criadores de conteúdo no YouTube. “Eu via pessoas jogando e achava interessante. Depois instalei no celular e comecei a jogar”, conta.

Segundo ele, o principal atrativo da plataforma é a grande variedade de jogos e a possibilidade de personalizar o próprio avatar. “Dentro do Roblox existem vários tipos de jogos, mas eu gosto mais dos de corrida”, explica.

Além de jogar, o Roblox permite que usuários criem seus próprios mundos virtuais por meio da ferramenta Roblox Studio, onde é possível desenvolver experiências para outros jogadores.

Debate sobre uso de telas cresce no Brasil

Nos últimos anos, o debate sobre limites no uso de redes sociais e jogos on-line por menores ganhou força no país. Um dos marcos mais recentes foi a aprovação do chamado ECA Digital, que estabelece regras para restringir o acesso de crianças e adolescentes a determinadas plataformas e exige mecanismos de verificação de idade.

Criado em 2006, o Roblox se popularizou especialmente a partir de 2021, durante a pandemia de covid-19, quando milhões de jovens passaram mais tempo em casa e conectados.

Em 2026, a empresa implementou novas regras de segurança, incluindo sistemas de verificação de idade e restrições de comunicação entre usuários com grandes diferenças etárias. O chat também passou a ser desativado por padrão para crianças menores de 9 anos, sendo liberado apenas com autorização dos responsáveis.

Influenciador e protestos virtuais

As mudanças provocaram reações dentro da própria comunidade da plataforma. Parte dos protestos foi direcionada ao influenciador Felca, que em 2025 publicou um vídeo denunciando a adultização de crianças nas redes sociais.

A repercussão do caso ajudou a impulsionar discussões públicas e contribuiu para o surgimento de propostas como o chamado PL da Adultização, voltado à proteção de menores no ambiente digital.

Algoritmos mantêm usuários conectados

Para o cientista de dados e pesquisador em inteligência artificial Guilherme Cioccia, grande parte das plataformas digitais utiliza algoritmos capazes de aprender rapidamente o comportamento dos usuários.

Segundo ele, sistemas de recomendação analisam informações do cadastro — como idade e interesses — e também dados de navegação, como curtidas, pesquisas e vídeos assistidos.

Esse cruzamento de informações permite prever quais conteúdos têm maior probabilidade de engajamento.

“Se o modelo consegue prever o que o usuário tende a consumir, ele passa a recomendar publicações que aderem quase perfeitamente ao perfil dele”, explica.

Além disso, plataformas utilizam recursos de design que incentivam o uso contínuo, como:

Scroll infinito, em que o feed nunca termina

Autoplay de vídeos, que inicia automaticamente novos conteúdos

Notificações frequentes de curtidas e mensagens

Recompensas rápidas, como visualizações e interações

“Esses sistemas foram criados para gerar zero fricção entre o usuário e a plataforma. As pessoas podem passar horas conectadas sem perceber”, afirma Cioccia.

Impactos no cérebro em desenvolvimento

Especialistas também apontam fatores biológicos que explicam por que crianças e adolescentes têm mais dificuldade em interromper o uso de telas.

A terapeuta e mestranda em neurociência Glaucia Benini explica que o cérebro nessa fase ainda está em desenvolvimento, especialmente o córtex pré-frontal, responsável pelo controle de impulsos e tomada de decisões.

“Jogos e redes sociais oferecem recompensas constantes. Esse mecanismo ativa sistemas cerebrais ligados ao prazer e pode se tornar potencialmente viciante”, afirma.

Além disso, o uso excessivo de telas pode afetar áreas importantes do desenvolvimento, como atenção, memória e concentração.

Mudanças de comportamento

Segundo especialistas, quando o ambiente digital passa a ocupar grande parte da rotina de crianças e adolescentes, alguns sinais de alerta podem aparecer:

agressividade ao retirar o celular

alterações bruscas de humor

dificuldade de socialização presencial

perda de apetite ou alterações no sono

baixa tolerância ao tédio

A neuropsicóloga Keyth Gimenez destaca que muitos jovens passam a preferir o ambiente virtual ao contato presencial.

“Muitas crianças relatam dificuldade de conversar ou se relacionar pessoalmente. Mesmo quando estão juntas, continuam conectadas ao mundo virtual.”

Empresas enfrentam processos

Enquanto o debate cresce, grandes empresas de tecnologia também enfrentam processos judiciais relacionados ao impacto das redes sociais na saúde mental de jovens.

A Meta Platforms, responsável por Facebook, Instagram e WhatsApp, e a Google foram acusadas em uma ação nos Estados Unidos de projetar recursos que incentivariam o uso excessivo das plataformas.

Durante o processo, o CEO da Meta, Mark Zuckerberg, afirmou que é difícil para aplicativos verificarem a idade real dos usuários e defendeu que fabricantes de celulares também deveriam assumir parte dessa responsabilidade.

Vida sem celular muda rotina familiar

Há duas semanas, o celular de Miguel quebrou, o que acabou alterando a rotina da família. Sem acesso ao aparelho, ele passou a ocupar o tempo com outras atividades.

“Estou fazendo outras coisas, como jogar baralho. Tento me distrair com atividades diferentes”, conta.

Para a mãe, Ivanise Catuver, a mudança foi positiva. “Agora ele senta com a gente, conversa mais e conta como foi o dia na escola. Antes ele ficava em silêncio, só jogando.”

Apesar da melhora no convívio familiar, o adolescente também demonstra sinais de ansiedade por estar sem celular.

Mesmo assim, a decisão da família é manter o jovem temporariamente sem o aparelho. “Ele pede todos os dias, mas eu digo que ainda não é o momento. Primeiro quero ver resultado na escola e respeito dentro de casa”, afirma a mãe.

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