“Internacional de Onde, Cara-Pálida?”

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Existe uma pergunta que há décadas ronda a cabeça dos sul-mato-grossenses e que nenhum filósofo conseguiu responder: por que o Aeroporto Internacional de Campo Grande é internacional se nunca teve voos internacionais?

É uma espécie de título honorário. Igual aquele primo que joga a pelada de domingo e insiste em ser chamado de atleta profissional.

Na teoria, o aeroporto é internacional porque possui autorização e estrutura para receber voos do exterior e realizar operações de imigração e alfândega quando necessário. Na prática, porém, o cidadão que chega ao balcão e pede uma passagem para Assunção, Buenos Aires ou Santa Cruz de la Sierra acaba ouvindo a famosa frase:
— "O senhor vai precisar fazer conexão em São Paulo."

Ou seja, para sair do Brasil por Campo Grande, primeiro é preciso sair de Campo Grande.

A grande questão é justamente essa. Se nunca houve uma operação internacional regular e permanente capaz de consolidar essa vocação, por que o título continua tão pomposo?

Talvez seja uma questão de autoestima. Mato Grosso do Sul faz fronteira com dois países, está no coração da América do Sul e possui alguns dos principais destinos turísticos do Brasil. O problema é que o turista estrangeiro chega mais facilmente por São Paulo do que pela cidade que ostenta o "internacional" na fachada.

É quase como colocar uma placa na frente de casa escrito "Palácio Imperial". A placa está lá. O fato de a sala ter uma televisão de tubo e um sofá remendado é um detalhe.

Recentemente, o aeroporto ganhou uma grande reforma. Novos espaços, mais conforto e capacidade ampliada. Excelente notícia. Mas o povo continua esperando o principal investimento: um painel de embarque que anuncie algo além de São Paulo, Campinas e Brasília.

A situação já virou folclore regional.

Imagine a conversa:

— O aeroporto de Campo Grande é internacional?

— É.

— Tem voo para fora do Brasil?

— Não.

— Mas já teve?

— Muito pouco e de forma esporádica.

— Então por que é internacional?

— Boa pergunta. Próxima questão.

Talvez a resposta esteja na eterna esperança brasileira. Afinal, somos o país do "agora vai". O aeroporto internacional espera pelo voo internacional como o torcedor espera pelo título do seu time: todo ano acredita que chegou a hora.

E não seria exagero pedir isso. Um estado que faz fronteira com Paraguai e Bolívia, abriga o Pantanal, Bonito e movimenta o agronegócio poderia muito bem ter ligações diretas com cidades vizinhas da América do Sul.

Enquanto esse dia não chega, Campo Grande segue com um aeroporto internacional que é quase um personagem de comédia. Internacional por decreto, nacional por rotina e especialista em ensinar ao passageiro a primeira regra da aviação sul-mato-grossense:

Para viajar ao exterior saindo de Campo Grande, o primeiro destino internacional é, inevitavelmente, Guarulhos.

Por Alcina Reis

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