
| Créditos: imagem reproduzida: A Folha do Vale
Em um ato de generosidade que faria inveja a qualquer conto de fadas, a Comissão Mista de Orçamento (CMO) decidiu, de forma "simbólica", que R$ 1 bilhão para financiar a próxima rodada do espetáculo eleitoral era pouco. Pura mesquinharia do Executivo! Então, em um movimento digno de alquimistas modernos, eles inflaram o Fundo Eleitoral— carinhosamente apelidado de "Fundão" — em impressionantes R$ 3,9 bilhões a mais. O resultado? Um cofrinho eleitoral de tirar o fôlego: R$ 4,9 bilhões para 2026.
Ah, a justificação! Eles dizem que é para "corrigir o equívoco do Poder Executivo". Que sensibilidade! Na verdade, eles queriam apenas garantir que o montante ficasse à altura do "Fundão" de 2024 (R$ 4,96 bilhões). Porque, afinal, não se pode ter uma eleição de qualidade inferior à anterior, certo? A campanha política é um show caro, e os artistas precisam de cenários, figurinos e, claro, muito marketing (leia-se: dinheiro para espalhar promessas ao vento).
A "Máfia Eleitoreira": Entendendo a Máquina
Para o cidadão comum, esse aumento astronômico é um borrão de zeros. Mas é aqui que a mecânica do que você chama de "máfia eleitoreira" se revela em sua engrenagem mais fina e cínica:
De Onde Vem o Dinheiro? Os R$ 4,9 bilhões vêm diretamente do seu bolso e do Tesouro Nacional. É dinheiro que poderia estar investido em Saúde, Educação ou infraestrutura essencial.
A "Mágica" do Aumento: A maior parte desse acréscimo (R$ 2,8 bilhões) é turbinada via emendas de bancada estadual, que são impositivas (ou seja, de execução obrigatória). Em termos claros: tiram o dinheiro de outras áreas obrigatórias para botar no "Fundão". A outra parte (cerca de R$ 1 bilhão) vem do cancelamento de despesas discricionárias (aquelas que "não são obrigatórias", como se alguma despesa para o povo não fosse).
O Caminho do Tesouro para o Candidato: O dinheiro vai do Tesouro Nacional para o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). De lá, é repassado aos diretórios nacionais dos partidos políticos. São as cúpulas partidárias que decidem, livremente, como distribuirão esses milhões entre seus candidatos. Não é o povo, nem o mérito, que decide, mas sim a fidelidade e o poder interno na legenda.
A Blindagem: Para selar a obra-prima, o relator da LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias) já incluiu uma cláusula que classifica o Fundo Eleitoral como despesa obrigatória, vedando seu contingenciamento. Ou seja, não importa se o país estiver em crise, esse dinheiro está garantido, blindado de qualquer corte. O financiamento da festa é prioridade máxima.
O Resultado na Ponta: E o que vemos no final do ciclo? O "pega pra capar" das prestações de contas, onde a criatividade floresce em casos de candidatos laranjas e o desrespeito às cotas de gênero. Tudo para justificar o uso do Fundão e manter a máquina azeitada para a próxima rodada.
É um sistema quase perfeito: o dinheiro é obrigatório, intocável, distribuído por quem já tem o poder e, no fim, a fiscalização é um espetáculo de falhas convenientes.
O Sonho de um Mundo Sem Padrinhos
Enquanto isso, a voz do senso comum— a sua, a minha— clama: "Por que não adotamos um modelo mais justo e austero?"
Você se refere ao modelo onde cada candidato "calce suas bonitas e corra atrás de seus votos", viabilizando-se com meios próprios ou doações privadas, como é comum em democracias de primeiro mundo.
Em países como Estados Unidos, Canadá e Reino Unido, o financiamento privado (com seus devidos limites e transparência) é o motor das campanhas, e não um fundo público colossal vindo do Tesouro. A corrida eleitoral é um exercício de viabilidade e apoio popular ou privado, não uma benesse paga integralmente pelo Estado.
Sim, financiamento de campanhas é necessário, mas quase R$ 5 bilhões retirados de saúde, educação e saneamento e tratados como “despesa obrigatória” para não poderem ser contingenciados é outra história. Menos espetáculo, mais prestação de contas clara; menos fundão, mais hospitais, escolas e saneamento para quem realmente paga o ingresso.
Afinal, se tem uma coisa que o Congresso sabe fazer de forma unânime, é garantir o seu próprio sustento. É a verdadeira arte da solidariedade política. E nós, o povo, somos os felizes e obrigatórios financiadores desse espetáculo que nunca perde a graça.
Por Alcina Reis






