Estudo aponta eficácia de 80,5% da vacina contra dengue do Butantan após cinco anos

Um estudo publicado na revista científica Nature Medicine na quarta-feira (4) revelou que a vacina tetravalente Butantan-DV, desenvolvida pelo Instituto Butantan, manteve 80,5% de eficácia contra casos de dengue grave ou com sinais de alarme após cinco anos de acompanhamento. No mesmo período, a eficácia geral contra dengue sintomática confirmada foi de aproximadamente 65%.

A pesquisa acompanhou 16.235 pessoas com idades entre 2 e 59 anos e foi conduzida como um ensaio clínico de fase 3, considerado o padrão-ouro para avaliar vacinas. O estudo seguiu o modelo randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, metodologia que garante maior precisão científica nos resultados.

Além da elevada proteção contra formas graves da doença, a análise também indicou impacto importante na redução de hospitalizações. Entre os 10.259 participantes vacinados, não houve registro de internações por dengue. Já no grupo que recebeu placebo, formado por 5.976 pessoas, foram registrados oito casos de hospitalização.

De acordo com Juarez Cunha, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), outro imunizante disponível no Brasil, desenvolvido pela farmacêutica japonesa Takeda, também apresenta dados que indicam proteção duradoura. Segundo ele, os resultados da vacina brasileira são semelhantes. “A grande diferença é que se trata de uma vacina desenvolvida pela nossa ciência, no Brasil, e com esquema de dose única”, destacou.

Cunha também ressaltou que os resultados reforçam não apenas a eficácia, mas também a segurança da vacina. Nesse sentido, Fernanda Boulos, diretora médica do Instituto Butantan, afirmou que nenhum sinal de alerta relacionado à saúde dos voluntários foi identificado durante o estudo.

Proteção varia conforme histórico de infecção

A análise mostrou que a eficácia da vacina também varia de acordo com o histórico de exposição ao vírus da dengue. Entre pessoas que já haviam contraído a doença, a eficácia foi de 77,1%. Já entre indivíduos sem infecção prévia, a proteção foi de 58,9%.

Em relação aos sorotipos do vírus, a vacina apresentou 73% de eficácia contra o DENV-1 e 55,7% contra o DENV-2. Durante o período de acompanhamento, no entanto, não foram registrados casos dos sorotipos DENV-3 e DENV-4 entre os participantes, o que impossibilitou avaliar a proteção contra essas variantes.

O estudo foi realizado em 16 centros de pesquisa distribuídos pelas cinco regiões do Brasil e contou com financiamento do Ministério da Saúde, do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e da Fundação Butantan.

Vacina de dose única facilita vacinação

A Butantan-DV é composta pelos quatro sorotipos do vírus da dengue e utiliza a tecnologia de vírus atenuado, ou seja, vírus vivos enfraquecidos em laboratório para não causar a doença, mas ainda capazes de estimular o sistema imunológico.

Um dos principais diferenciais do imunizante é o esquema de dose única. Isso ocorre porque o vírus vacinal possui alta capacidade de replicação inicial, o que gera uma resposta imunológica forte já na primeira aplicação, suficiente para garantir proteção.

Estudos adicionais indicaram que uma segunda dose não aumenta a produção de anticorpos, nem provoca nova circulação do vírus vacinal no sangue, o que confirma que uma única aplicação já é suficiente para atingir o nível de proteção necessário.

Segundo Fernanda Boulos, o esquema também facilita a logística da vacinação e aumenta a adesão da população. “Em vacinas que exigem duas doses, apenas cerca de 40% a 43% das pessoas retornam para a segunda aplicação. Com a dose única, a pessoa já fica protegida e não precisa voltar ao posto de saúde”, explicou.

A vacina foi aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em novembro de 2025. Desde então, o Instituto Butantan enviou cerca de 1,3 milhão de doses ao Programa Nacional de Imunizações (PNI), responsável pela distribuição no Sistema Único de Saúde (SUS).

De acordo com dados do instituto, aproximadamente 50 mil doses já foram aplicadas no estado de São Paulo até o momento.

Compartilhe: