“Desmazelo Ou Será Que Não?”


Era uma vez um processo gigante, com 175 acusações, 175 páginas de um histórico criminal que qualquer Estado deveria tratar como prioridade absoluta. No centro dele, um dos nomes mais conhecidos do crime organizado no país, alguém que exigiu operações complexas, inteligência policial e anos de trabalho para ser preso. Um caso que parecia sólido, histórico, incontornável.

Parecia.

O Estado, essa máquina que adora parecer grande, mas tropeça nos próprios cadastros, deixou o tempo passar. Deixou correr como quem observa a areia escorrer da ampulheta sem sequer tentar virar o vidro. Enquanto isso, petições iam, petições vinham, audiências eram adiadas, procedimentos se acumulavam como poeira em prateleiras esquecidas.

E então, o inevitável: prescrição.

Sim, a absolvição não veio por reconhecimento de inocência, nem por dúvida razoável, nem por falta de provas. Veio porque o relógio jurídico chegou ao fim e ninguém, absolutamente ninguém, se preocupou em agir dentro do prazo. Um caso monstruoso, que deveria ter sido tratado como prioridade nacional, simplesmente caducou. Morreu de velhice processual.

Doze anos. Esse foi o tempo que o Estado teve para concluir o maior processo que já existiu contra um líder de facção. Doze anos para fazer o mínimo: cumprir os prazos que ele próprio estabelece. Doze anos desperdiçados em lentidão, descuido e burocracia.

E quando a decisão saiu, o país inteiro pareceu ouvir um riso abafado vindo de algum canto do sistema. Não um riso de alegria — mas de escárnio. Um deboche que ecoa: 

“Perdemos o prazo. E daí?”

A sensação que fica é amarga: não é que a justiça seja cega. É que ela anda de bengala, pisando em cascas de banana, tropeçando, cochilando — e, às vezes, parece até que gosta de chegar atrasada. Porque chegar atrasada, nesse caso, significou cancelar 175 acusações construídas ao longo de anos.

E assim, o país assiste ao espetáculo: operações milionárias, anos de investigação, servidores dedicados e policiais arriscando a vida… tudo sendo engolido pela boca faminta da morosidade.

Se a justiça fosse um relógio, estaria quebrado. E pior: ninguém parece querer consertá-lo.

Por Alcina Reis

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