“Brasil segue esperando maturidade”
- porAlcina Reis
- 21 de Maio / 2026
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Diz um velho ditado popular que quem não aguenta o calor da cozinha não deve se meter a cozinheiro. Na política brasileira, contudo, convencionou-se criar uma nova regra: quem não aguenta o calor dos trópicos corre para Washington para chorar no colo do Tio Sam.
A notícia de que o senador Flávio Bolsonaro articula uma ida às pressas para os Estados Unidos em busca de uma agenda com Donald Trump soa como mais um capítulo de um roteiro repetitivo e, francamente, desesperado. Em meio a crises internas, divergências com aliados e o peso de suas próprias articulações no tabuleiro nacional, a reação do parlamentar repete o mesmo cacoete da sua ala política: buscar a bênção norte-americana como se a Casa Branca fosse um tribunal de apelação para os dilemas do Brasil.
O movimento evoca, inevitavelmente, o fantasma do irmão exilado. O roteiro parece o mesmo, escrito sob a cartilha do desespero. Diante de qualquer turbulência em solo pátrio, a bússola aponta para o Norte, cruzando o oceano em busca da proteção de uma figura estrangeira. Os bolsonaristas precisam, urgentemente, aprender a resolver seus problemas aqui no Brasil. Essa insistência infantil em correr para debaixo da saia de Donald Trump não apenas apequena as lideranças que se dizem "nacionalistas", mas cria um ruído diplomático desnecessário, tensionando as relações oficiais entre Trump e Lula, que, goste-se ou não, representam as instituições de seus respectivos países.
Mas há algo ainda mais profundo nessa obsessão que revela uma miopia generalizada em nosso eleitorado. Precisamos deixar uma linha divisória muito clara, que muitos eleitores parecem ignorar por pura cegueira ideológica:
Uma coisa é você ser de direita, defender o livre mercado, a propriedade privada e os valores conservadores; outra coisa, completamente diferente, é hipotecar sua consciência e apostar cegamente na família Bolsonaro. Da mesma forma, uma coisa é ser de esquerda, defender a justiça social e a soberania popular; outra bem diferente é achar que o projeto de país se resume a apostar as fichas integralmente em Lula.
Ideologias e visões de mundo são legítimas e fazem parte de qualquer democracia madura. O messianismo personificado, por outro lado, é a receita perfeita para o fracasso coletivo. Reduzir o debate público a duas dinastias — ou a duas figuras que se alimentam mutuamente do antagonismo — é um atestado de menoridade política.
Enquanto nossos representantes cruzam o continente para mendigar atenção na antesala de líderes estrangeiros e o debate doméstico continua refém de heróis de barro, o país real segue esperando soluções para a economia, a segurança e a educação.
Está na hora de sermos conscientes. O futuro da nação não é um tabuleiro de fofocas internacionais ou uma arena de torcidas organizadas. Paremos de brincar com o destino do Brasil; nossos problemas se resolvem aqui, no voto, no debate e na seriedade, e não nos bastidores de Washington.
Por Alcina Reis






