“Bonde do Narciso: O Busto, a Estátua e o Dono da Vila”

| Créditos: Reprodução / Santos


Existe uma linha muito tênue entre ser um ídolo imortalizado e resolver transformar um clube centenário na sua própria galeria de arte contemporânea. O Santos, afinal de contas, sempre foi respeitado globalmente por um motivo sagrado: ser o berço do Rei Pelé, a terra onde o futebol virou realeza e a camisa 10 ganhou alma de manto supremo. No entanto, no Alvinegro moderno, essa linha do respeito à tradição não apenas foi cruzada, como foi devidamente driblada, penteada e eternizada em bronze.

A novidade de que o museu da Vila Belmiro agora conta simultaneamente com busto, estátua e relíquias de Neymar prova algo que a torcida já desconfiava em segredo: o trono pode ter sido fundado por Pelé, mas o imóvel inteiro parece ter sido registrado em cartório no nome do Menino Ney. Dizem que, ao chegar para inaugurar as obras, o craque olhou para a própria imagem e pensou: “Faltou um detalhe, podia ter um espelho d’água ao redor”. Afinal, o lendário Rei do futebol era um garoto modesto perto de quem consegue monopolizar todas as formas geométricas e tridimensionais de um museu.

Dizem os bastidores que a diretoria pensou em colocar um espelho no lugar do busto, mas o bronze pelo menos não pisca de volta nem exige royalties quando o ídolo passa.

O conceito é inovador. O Santos se orgulha de ser o berço de Pelé e da maior dinastia da bola, mas a nova ambientação do Memorial funciona quase como uma taxa de condomínio simbólica cobrada pelo novo proprietário moral do estádio. O torcedor que entra não vai mais apenas rever reverente os passos do Rei; vai para assistir ao capítulo mais recente de uma novela em que o autor, o ator principal e o dono do camarim são exatamente a mesma pessoa.

E convenhamos, há certa poética nisso. Se no século passado Pelé eternizou o Santos no mapa do mundo com gols e coroas, nosso herói contemporâneo prefere eternizar a si mesmo em todos os ângulos possíveis. Se a Vila é a sua casa, como ele sempre faz questão de lembrar, nada mais justo do que redecorar a sala de visitas do Rei ao seu bel-prazer. Aos torcedores e aos demais mortais, resta pagar o ingresso e aplaudir a ousadia de quem transformou o berço do futebol no seu próprio camarim particular.

Por Alcina Reis

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