Aplausos não bastam para quem carrega a história de Mato Grosso do Sul
- porAlcina Reis
- 25 de Agosto / 2026
- Leitura: em 7 segundos

| Créditos: Foto: Amanda Ferreira
“Do vinil ao shopping, Grupo Acaba mostra sua história à nova geração” poderia ser apenas o título de uma bonita reportagem sobre seis décadas de música. Mas, para mim, a história contada vai muito além de uma apresentação especial em um shopping de Campo Grande.
O Grupo Acaba é daqueles patrimônios que não precisam de apresentação. Há 60 anos, o grupo ajuda a contar Mato Grosso do Sul por meio da música, preservando histórias, tradições, personagens, dores e encantos do Pantanal. É memória viva de um povo.
Ver Moacir Lacerda, Carlinhos Batera, Fábio Kaida, Luiz Sayd, Tião César e Zezé Mauro no palco é um privilégio. Ouvir músicas como Gaivota Pantaneira, Ciranda Pantaneira e A Última Cheia é reencontrar a alma pantaneira, lembrar os povos originários, denunciar as queimadas e reviver acontecimentos que fazem parte da nossa história.
E há algo especialmente bonito nisso: jovens descobrindo essa música, talvez pela primeira vez, em meio à rotina de um shopping. É cultura encontrando uma nova geração.
Mas é justamente aí que surge minha indignação.
Na verdade, eu acho isso um absurdo!
Não a apresentação no shopping. Muito menos o espaço que proporcionou esse encontro. O absurdo é pensar que um grupo com seis décadas de contribuição à cultura de Mato Grosso do Sul ainda precise disputar espaço e reconhecimento enquanto artistas de sucesso passageiro recebem cachês milionários para ocupar os grandes palcos.
Não quero desmerecer nenhum cantor ou banda. Cada artista tem seu público e seu valor. Mas precisamos ter coragem para fazer uma pergunta incômoda:
estamos valorizando aquilo que realmente representa a nossa história?
Enquanto alguns fenômenos musicais recebem fortunas para animar grandes eventos, o Grupo Acaba, que carrega nas letras e na música a identidade de Mato Grosso do Sul, deveria estar entre as grandes atrações desses mesmos palcos.
Deveria receber cachê à altura de sua importância.
Deveria ser tratado como atração principal.
Deveria ser celebrado não apenas pela nostalgia, mas pela relevância cultural que continua tendo.
Porque não estamos falando simplesmente de uma banda antiga. Estamos falando de artistas que ajudaram a construir uma identidade cultural.
E isso não tem prazo de validade.
É preocupante quando a sociedade se acostuma a pagar muito por aquilo que amanhã poderá ser esquecido e pouco por aquilo que merece ser lembrado para sempre.
Cultura não pode ser tratada como produto descartável.
É memória. É identidade. É patrimônio. É aquilo que nos permite saber de onde viemos e quem somos.
Por isso, os governantes precisam olhar para além dos holofotes e dos grandes cachês. Precisam entender que investir em quem preserva nossa cultura é também investir nas próximas gerações.
E nós, enquanto sociedade, também precisamos fazer a nossa parte.
O Grupo Acaba merece aplausos, sim. Muitos aplausos.
Mas merece muito mais do que isso.
Merece palco, respeito, reconhecimento e valorização financeira compatível com a história que ajudou a construir.
Que os aplausos recebidos na praça de alimentação não sejam vistos como consolo, mas como um alerta.
Porque, depois de 60 anos, o Grupo Acaba não deveria estar pedindo espaço para contar a história de Mato Grosso do Sul. Deveria estar sendo chamado para os maiores palcos justamente porque é parte dessa história.
Talvez esteja na hora de a sociedade e os governantes aprenderem uma lição simples: quem tem história não pode ser tratado como quem está apenas passando pela história.
Por Alcina Reis






