“Aplausos Não Bastam”

| Créditos: Arquivo pessoal


Começa mais uma semana, e com ela a primavera. Mas pena que nem tudo são flores, e a explicação é uma saudade que pesa mais que um baú de recordações.

No sábado passado, movida por essa nostalgia, escrevi o editorial “Um Legado de Generosidade e Saudade”. Nele, revivi meus dez anos de trabalho ao lado da pastora Janete Morais e a herança de bondade deixada por seu pai, o senhor Antonio Morais. Escrevi com o coração. O texto ecoou, os cliques ainda ressoam, e os elogios pela pauta bem escolhida foram muitos. No entanto, junto com os aplausos, vieram os questionamentos. Perguntas que resolvi responder hoje, de forma geral, para um esclarecimento que já latejava.

A interrogação que mais se repetia era simples, direta e cortante como um fio de barbante puxado por uma mão curiosa: por que um instituto – que atendia favelas de Campo Grande, clínicas para dependentes químicos e aldeias, socorrendo na saúde com remédios, cadeiras de rodas e campanhas, ajudando a reconstruir casas, doando milhões de cestas básicas, levando dignidade às comunidades mais carentes da capital e do entorno – pode fechar?

Um detalhe que sempre nos orgulhou: o Instituto Veredas da Fé jamais entregou uma única doação sequer de itens estragados. Tudo passava por uma séria e comprometida avaliação antes de seguir para as mãos daqueles que realmente precisavam. Era ajuda de verdade.

Ajuda? 

Essa palavra soa agora como um eco irônico. Pois, apesar de termos tido reconhecimento municipal, estadual e federal, de sermos uma entidade filantrópica com Certificação de Entidade Beneficente de Assistência Social, com todos os trabalhos registrados em redes sociais e na imprensa de Mato Grosso do Sul, jamais recebemos sequer uma única emenda parlamentar em apoio aos nossos trabalhos. E não foi por falta de tentar, pois buscamos ajuda no município e no estado, batendo em portas que deveriam estar abertas. Um trabalho que envolvia, direta e indiretamente, cerca de quase 70 pessoas.

Tivemos, sim, o apoio de muitos empresários de coração grande, que doaram alimentos, materiais de construção, remédios, brinquedos. Mas infelizmente, não era suficiente para socorrer a imensidão da necessidade. Em quase todas as ações, a pastora Janete completava do próprio bolso a maior parte dos gastos. E o fazia com um sorriso, de coração.

Reconhecimento? 

Ah, esse não nos faltou. Temos uma coleção deles. Tanto ela quanto eu acumulamos certificados da Assembleia Legislativa e da Câmara Municipal. Certificados de “Reconhecimento”, “Realização Social”, “Impacto Positivo”, “Serviço de Excelência”, “Progresso”, “Contribuição Valiosa”. Palavras douradas em papéis de pergaminho, realçando a qualidade, o benefício e o propósito do trabalho. Papéis que hoje emolduram uma ausência.

Mas o que precisávamos não eram molduras para pendurar na parede. Precisávamos de algo mais tangível, mais sólido, mais transformador: apoio financeiro. O gigantesco trabalho que fizemos, e que deixou um rastro de saudade, poderia fazer hoje uma diferença brutal em nossa cidade. Os certificados não compram remédios, não erguem paredes, não matam a fome de uma família.

Penso que assim respondo a todos. E digo mais: 

nosso lema sempre foi "Se muitos fizerem um pouco, não será necessário que poucos façam muito". Era essa a ideia inicial, generosa e coletiva, de um projeto que, paradoxalmente, nunca teve um centavo sequer de emendas parlamentares. Mesmo estando oficialmente apto a recebê-las, pois atendia a todos os critérios no papel.

O legado que ficou, desses dez anos, não é só de generosidade e saudade. É também o legado amargo de entender que, às vezes, o reconhecimento mais alto é o mais oco, e que a verdadeira ajuda some quando a música para e os holofotes se apagam, deixando apenas o silêncio e o peso leve dos certificados.

Por Alcina Reis

Jornalista Alcina Reis ao lado da Pastora Janete Morais | Créditos: Arquivo pessoal

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