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A Lei do Retorno (Ao Passado)
Em meio ao turbilhão que assola o cotidiano nacional – a guerra de preços que esvazia a carteira, a escalada da violência, a fragilização do trabalho, a sensação de que o chão social se move perigosamente –, eis que a cena política resolve se voltar para o que realmente importa: a autopreservação.
Enquanto o país debate sua sobrevivência, um grupo de notáveis, em Brasília, movimenta-se com urgência surpreendente. O tema? Não é o custo do pão, nem o medo nas ruas. O assunto do momento, aquele que unifica esforços e acelera trâmites, é a arte de escapar das consequências.
Batizam-na de “PEC das Prerrogativas”, um título técnico e árido, quase um sonífero em forma de sigla, propositalmente desenhado para não incendiar as manchetes. A estratégia é clara: discutir o enfraquecimento da Justiça com termos que afastem o cidadão comum. Sob esse manto de chatice, esconde-se uma operação de retorno a um tempo onde certas portas ficavam trancadas para alguns.
A manobra busca ressuscitar um pacto de outrora, uma cortina de ferro legal que separava os eleitos do restante da população. A ideia é simples: se um deles comete um deslize, apenas os próprios colegas teriam a chave para julgar. Um sistema onde o aval do grupo vale mais do que as provas colhidas pela investigação. Um clube onde a culpa é um detalhe a ser negociado internamente.
Não é difícil decifrar o calendário dessa investida. Ela surge justamente quando as engrenagens da Justiça começam a se mover com mais rigor, investigando desvios de verba pública que envolvem figuras influentes. Surge quando figuras ruidosas da política promovem arruaças dentro do próprio Congresso, desafiando a ordem que juram representar. Surge, não por acaso, em um momento de tensão judicial que atinge um ex-presidente e seus aliados mais próximos.
Dois casos emblemáticos ilustram o que está em jogo. Uma parlamentar condenada por forjar ordens judiciais agora reside tranquilamente no exterior, longe do alcance das autoridades que desrespeitou. Outro, desde solo estrangeiro, articula ataques às instituições do seu próprio país, como se as fronteiras da lei também pudessem ser dribladas com um passaporte.
Se este escudo de impunidade já estivesse erguido, esses personagens não estariam no exílio voluntário. Estariam aqui, impunes e intocáveis, protegidos por um muro de legalidade construído por seus pares. A mensagem que se tenta passar a ferro e fogo é cristalina: para uma certa casta, as regras são outras. O preço da irresponsabilidade será pago apenas por quem está lá fora, assistindo a tudo de longe.
Enquanto se discute com fervor como blindar poucos, a maioria segue sua vida, tentando se proteger de golpes virtuais, da insegurança e da injustiça que, para ela, nunca foi tributária, mas sim cotidiana. A verdadeira partida que se joga não é em um ambiente lúdico; é uma disputa pelo próprio significado de justiça e igualdade. E o tabuleiro somos todos nós.
Por: Alcina Reis

Jornalista Alcina Reis | Créditos: Arquivo pessoal






