“A Estrada que Vira Palanque”

| Créditos: IA /Conteúdo MS


A cada vez que se fala em greve de caminhoneiros, o país inteiro prende a respiração. Afinal, quando eles param, nada anda. Mas a paralisação anunciada para esta quinta-feira carrega algo estranho no ar: não o cheiro do diesel, mas o perfume forte — e muito evidente — de articulação política da extrema direita.

O problema não é ser uma greve da direita. Greve é um instrumento democrático, qualquer grupo pode fazer. O problema é quando o objetivo deixa de ser a defesa da categoria e passa a ser a defesa de pautas que nada têm a ver com o dia a dia da estrada. Os pedidos, dessa vez, miram muito mais em embates ideológicos e agendas de interesse de pequenos grupos do que em reivindicações que beneficiem a maioria da população.

A tal “mobilização nacional” chega rachada, com muitos caminhoneiros dizendo não — e estão certos. A categoria está cansada de ser usada como massa de manobra. Não houve consenso, não houve assembleia ampla, não houve construção coletiva. Houve, sim, uma convocação de cima para baixo, empurrada por lideranças politicamente engajadas e claramente alinhadas a um projeto que ultrapassa em muito os limites da boleia.

Os Que Ficaram na Estrada — e Ficaram Certos

Não é qualquer movimento que merece parar o país. Quem vive nas estradas sabe disso melhor do que ninguém. Parar significa desabastecer, travar hospitais, farmácias, escolas, pequenas empresas. Significa afetar o cotidiano de mais de 200 milhões de habitantes.

E tudo isso deve ser feito apenas quando a causa é coletiva, justa, necessária — como tantas greves do passado que realmente representaram interesses amplos da sociedade.

Diferente disso, a convocação atual não dialoga com a categoria inteira. Fala por uma minoria ruidosa que tenta vestir de “revolta popular” um movimento que tem mais cheiro de campanha política do que de reivindicação trabalhista. E os caminhoneiros que recusaram participar enxergaram exatamente isso: não querem ser usados.

Assumiram a postura mais madura possível — e mais difícil também: resistir à pressão de um discurso inflamado, que se alimenta da falsa ideia de que “quem não para está traindo o país”.

Greves de Verdade Foram Outras

O Brasil tem uma história rica de greves legítimas: mobilizações que lutaram por direitos, aposentadoria, salários, condições de trabalho, educação, saúde. Greves que envolveram inúmeras categorias, movimentos sociais, sindicatos, estudantes — e que tinham um objetivo comum: defender causas que atingiam a maioria.

Nada disso se parece com a paralisação desta quinta. A diferença é enorme — quase uma cratera: de um lado, greves construídas coletivamente e voltadas para o bem-estar social; de outro, um ato político travestido de “mobilização nacional”, tentando usar caminhões como palanque.

Parar o País Não É Brincadeira

Mobilizar uma categoria tão essencial é algo sério demais para ser reduzido a disputa partidária. Caminhoneiro nenhum pode carregar sozinho os interesses de políticos que querem transformar o Brasil em palco de seus embates ideológicos.

Se é para parar o país, que seja por combustível mais barato, frete justo, estradas seguras, melhores condições de trabalho, direitos concretos — não por agendas que não representam a coletividade.

E quem se recusa a ser instrumento nesse jogo, quem segue trabalhando enquanto alguns tentam transformar a estrada em palanque, está fazendo a escolha mais difícil… e mais correta.

A força de uma greve está na sua moral e na sua pauta. Quando falta o apoio da maioria do povo e sobra o cheiro de manobra política, a greve não apenas perde força; ela perde a alma e, merecidamente, cai no descrédito.

*Fica o alerta para quem segue cegamente a palavra de político: o episódio de 8 de janeiro mostrou onde esse caminho leva. Muitos apoiadores, gente comum, pais de família, acabaram presos enquanto os articuladores desapareceram. Agora surge mais uma encenação — ou armadilha — pronta para empurrar outros desavisados para novos processos.

O Brasil precisa de menos manipulação e de mais consciência sobre o que realmente significa lutar pelo interesse nacional.

 

Por Alcina Reis

| Créditos: Arquivo pessoal

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