“A Escola, o Desenho e o Silêncio que Grita Racismo”
- porAlcina Reis
- 20 de Novembro / 2025
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| Créditos: IA /Conteúdo MS
Queridos leitores, às vezes a gente olha para o noticiário e tem a estranha sensação de estar lendo um arquivo antigo, maldito, que insiste em se repetir. A data no calendário marca o 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, um dia de luta, de celebração da resistência, mas também de lembrar as batalhas que, pasmem, ainda precisam ser travadas.
E a notícia que ecoa neste novembro de 2025 é a prova viva disso. O Ministério dos Direitos Humanos precisou se manifestar para repudiar a ação da Polícia Militar em uma escola, chamada após um desenho de um orixá. Sim, um desenho. A representação de uma divindade africana, parte fundamental da cultura e da história que este dia busca resgatar, foi tratada como caso de polícia. A sala de aula, espaço que deveria ser de ampliação de horizontes, foi invadida pelo fantasma do preconceito, vestindo farda.
Ao ler essa reportagem, meu coração não se apertou apenas pela injustiça do presente. Ele foi arrastado para o passado, para uma cena quase idêntica, vivida na pele a quem muito amo.
Meu filho mais velho, o Renan, é formado pela UFMS, e tem um vasto currículo não só na arte e cultura, mas também é arte-terapeuta. Uma de suas maiores paixões é lecionar e ensinar arte e cultura. Por algum tempo, foi professor em Campo Grande. Em um determinado dia, salvo engano uns 15 anos atrás, resolveu aplicar em sala de aula de uma determinada Fundação da Capital, a cultura africana. É claro que pra que isso acontecesse, falou sobre orixás e toda a vasta cultura africana.
A aula mal acabou, com os alunos ainda encantados por conhecer um mundo sobre o qual eram mantidos na mais completa desinformação, e lá estava o Renan sendo chamado na diretoria da tal Fundação. E? Sim, sendo DEMITIDO!
Os alunos, que adoravam seu mestre, ficaram tristes e revoltados com a atitude da pessoa que deveria ser o exemplo anti-racismo: a diretora, que tomou tal atitude sem pestanejar.
Mas a indignação, a tristeza e a frustração foram ainda maiores por parte do Renan, que não se rendeu. Ao contrário, na época se mudou para São Paulo em busca de mais conhecimentos e formações, pois havia percebido, na pele, o racismo estruturado e violento de sua terra natal. Um racismo que, hoje, a passos de cágado, tenta ser combatido por políticas públicas, mas que ainda respira forte.
E eis que, 15 anos depois, a cena se repete. A motivação é a mesma: o pavor do diferente, a rejeição a uma cultura que teima em ser tratada como inferior, o desconforto com a riqueza de uma herança que não é a europeia. Troca-se a diretora pela PM, a demissão pela intimidação institucional, mas a raiz do mal é a mesma, venenosa e profundamente enraizada.
Os anos passam, o calendário avança, mas as histórias teimam em não mudar. O 20 de novembro chega todos os anos nos lembrando de Zumbi, da luta de Dandara, da resistência dos quilombos. E, infelizmente, também nos lembra que a sala de aula, que deveria ser nosso quilombo do saber, ainda precisa, todos os dias, lutar para não ser um palco de repetição das mesmas e velhas intolerâncias.
Que este 20 de novembro sirva menos para discursos prontos e mais para reflexões profundas. Que a indignação não seja apenas momentânea — e que as próximas gerações possam, enfim, contar histórias diferentes das nossas.
Por Alcina Reis






