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O sol de Campo Grande, que não perdoa a pele nem o bolso, parecia rir, amarelo e impiedoso, da mais nova encenação circense da nossa política. Nos bastidores do picadeiro municipal, um personagem em destaque, de terno engomado e sorriso de comercial de margarina, foi pego com as calças na mão. Ou melhor, sem a quitação do IPTU.
Epaminondas, o digníssimo comandante do Legislativo, aquele que recebe o salário pago por cada imposto suado, mostrou ao que veio. Uma dívida de R$ 99 mil, que se arrastou como uma cobra, inchando com juros e multas, e que agora virou manchete de jornal. O nobre parlamentar, que vive atrás da própria Câmara que comanda, parece ter esquecido que o caminho do bem-estar social também passa pelo pagamento de suas contas. É uma bela sátira, não é mesmo? O regente da casa das leis, o exemplo a ser seguido, o campeão da moralidade, deve mais de cem mil reais à cidade que o elegeu.
Enquanto isso, o povo, esse figurante incansável na peça do poder, assiste a tudo com um misto de resignação e indignação. De que adianta pagar a conta de luz, a feira, o gás, se quem deveria dar o exemplo prefere se fazer de desentendido? A cena se repete em um teatro de marionetes por todo o país, onde as cortinas se fecham com o nosso dinheiro, e os fios são puxados por interesses pessoais. Nesse espetáculo, acompanhamos a decadência de um patriarca, enquanto o filho se move nos bastidores, buscando apenas o próprio benefício.
Em uma rápida busca, descobrimos que as leis que nos regem, muitas vezes, parecem escritas para blindar aqueles que as criam. PECs de anistia, fundos eleitorais bilionários, imunidade parlamentar e foro privilegiado. Tudo para garantir que, não importa o que aconteça, a elite política estará sempre à frente. Regalias que incluem veículos, motoristas, segurança, e até mesmo pensões vitalícias para quem já usou e abusou do poder. É um prato cheio de privilégios servido para um público que se contenta em ver as sobras.
Propostas que realmente poderiam mudar a vida da gente, como a isenção de imposto de renda para os mais pobres, o fim da jornada de trabalho desumana ou um novo plano de educação, continuam mofando nas gavetas do Congresso. A prioridade é sempre a pauta deles, a deles. Enquanto o país espera, os "representantes" do povo se preocupam com a própria imunidade e com o quanto podem desviar.
Como disse Victor Hugo, "Entre um Governo que faz o mal e o povo que consente, há uma certa cumplicidade vergonhosa."
E a gente, que votou, que esperou, que acreditou, fica com a sensação de que cada povo tem o governo que merece. Uma frase tão dura quanto um soco, mas que ecoa como a mais pura verdade. Porque, no final das contas, somos nós que os colocamos lá. E somos nós, também, que os tiramos. Mas será que, de fato, queremos? A vergonha de sermos cúmplices dessa tragédia continua em cena.
Por Alcina Reis

Jornalista Alcina Reis | Créditos: Arquivo pessoal






