“A Cadeira que Eles não Querem Dividir”
- porAlcina Reis
- 14 de Abril / 2026
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Dizem que o conselho vem "para o seu próprio bem". Entre corredores atapetados e gabinetes de madeira nobre, vozes se levantam com uma falsa solicitude, sugerindo que a Ministra Cármen Lúcia deveria, quem sabe, descansar. Que a toxicidade dos ataques, a virulência das ofensas e o peso do machismo institucional são fardos pesados demais para uma mulher carregar. "Saia", dizem eles. "Proteja-se", sussurram outros. Mas o que se esconde sob o manto desse suposto cuidado é, na verdade, a face mais arcaica da exclusão.
Recentemente, a ministra revelou o que muitos já suspeitavam: o aconselhamento para que deixe o Supremo Tribunal Federal não nasce de uma preocupação com sua saúde, mas da incapacidade de certos setores em lidar com uma mulher que detém a caneta e a lei. O machismo, no Brasil, não ataca apenas nas esquinas ou nos lares; ele veste toga, usa terno sob medida e se manifesta na tentativa de "gentilmente" empurrar uma magistrada para fora do espaço público.
Pedir que Cármen Lúcia saia por causa de ataques machistas é o mesmo que pedir que a vítima de um assalto peça desculpas por ter bens. É inverter a lógica da justiça. Os ataques que ela sofre — e que tantas outras mulheres em cargos de poder enfrentam — não são sinais de que elas estão no lugar errado. Pelo contrário: são a prova de que elas estão exatamente onde a estrutura patriarcal mais teme que elas estejam.
Se a Ministra cedesse e abandonasse a Corte, o recado para as futuras gerações de brasileiras seria devastador. Significaria que o grito, a ofensa e o preconceito venceram o mérito e a Constituição. A saída de Cármen Lúcia não seria um ato de autopreservação, mas um retrocesso civilizatório de décadas. Cada passo dado em direção à porta de saída seria um quilômetro de volta ao tempo em que o Direito era um monólogo masculino.
Por isso, Ministra, a sua permanência é, hoje, um dos maiores atos jurídicos deste país. Enfrentar o esgoto das redes sociais e o desdém silencioso dos pares não é apenas uma questão de brio pessoal, é um dever com a democracia. A sua cadeira no STF não pertence apenas à senhora; ela pertence a cada advogada, cada estudante de Direito e cada cidadã que acredita que a lei deve ter rosto de mulher, voz de mulher e a firmeza que só quem sobrevive ao machismo diário consegue ter.
Não saia. Não lhes dê o prazer do silêncio. A sua presença é o maior desconforto daqueles que ainda acham que o poder é um clube de cavalheiros. Permanecer no cargo é a sentença mais dura que a senhora pode dar contra o preconceito. E o Brasil precisa dessa decisão, transitada em julgado, todos os dias.
Por que sair seria um retrocesso?
Abertura de Precedente: Se uma Ministra do STF é "vencida" pelo cansaço do machismo, o que se dirá de mulheres em cargos de menor visibilidade?
Representatividade: O STF já possui uma sub-representação feminina histórica. Qualquer saída sem uma substituição à altura fragiliza o equilíbrio de gênero na última instância da Justiça.
Validação da Agressão: A renúncia sinalizaria aos agressores que a tática de ataques pessoais e ofensas morais funciona para remover opositores ou figuras indesejadas.
Por Alcina Reis






