
A madrugada calada não foi capaz de esconder o barulho dos tiros. Quinze ao todo. Quinze feridas abertas não só no corpo de Lucas Ribeiro Pastor, de 24 anos, mas também no coração de uma filha pequena que agora vai crescer com lembranças ao invés de abraços. No lugar do pai, restou uma ausência doída, cravada no silêncio de um quarto infantil.
Lucas foi morto em frente a uma tabacaria no Jardim Centenário, local já conhecido por aglomerações, som alto e queixas que se empilham entre vizinhos e autoridades.
Mas naquela noite, foi o ciúme, não o volume, que falou mais alto.
De acordo com a investigação, a motivação do crime pode ter sido uma disputa por uma mulher — um relacionamento antigo, talvez mal resolvido, talvez nunca aceito. Um amor ferido, mal curado, mal digerido.
E aí voltamos à pergunta que sempre volta, mas nunca encontra resposta: vale uma vida? Vale acabar com a própria e com tantas outras ao redor por orgulho, por machismo, por esse senso doentio de posse que ainda nos assombra? Não, não vale. Nunca valeu.
Quem mata, por mais “razão” que diga ter, arranca mais do que o sangue de alguém. Arranca a história, as promessas, os planos. Arranca o pai de uma menina de cinco anos que escreveu uma carta de despedida que nem deveria entender, mas entendeu. Porque a dor da ausência é clara mesmo na infância.
Se um criminoso, mesmo diante das piores atrocidades, deve responder pelos seus atos com a firmeza da lei — porque essa é a justiça civilizada —, o que dizer de um homem que mata por não aceitar perder uma mulher? Se um marginal não merece morrer, Lucas, que não era marginal, tampouco merecia.
No fim, quem morre não sofre. Sofre quem fica. Fica a filha. Ficam os pais. Ficam os amigos. Fica o vazio.
E fica essa ferida social que se repete com nomes diferentes, bairros diferentes, armas diferentes, mas quase sempre a mesma motivação: o machismo que mata, a masculinidade ferida que não suporta a perda, o ego que não sabe perder e destrói tudo ao redor. Mas nada trará Lucas de volta.
Enquanto o machismo tratar mulheres como posse e o ciúme for confundido com amor, histórias como essa continuarão se repetindo.
E no final, quem paga o preço nunca são os que atiram, mas os que ficam — com o coração em pedaços e um vazio que o tempo não apaga.
É tempo de desaprender essa ideia de que o outro nos pertence.
Ninguém é de ninguém.
Por Alcina Reis

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