“15/11: Ordem (para uns) e Progresso (para outros)”


O 15 de novembro de 1889 amanheceu sob um clima de expectativa velada no Rio de Janeiro. A capital imperial, acostumada à rotina monárquica de Dom Pedro II, assistia a algo que, para muitos, era a concretização de um sonho acalentado nos círculos militares e nas rodas de intelectuais: a Proclamação da República.

O Que se Esperava na Época

Naquele momento histórico, a República era vista por seus idealizadores como a chave para a modernização do Brasil.

Militares (positivistas): Sonhavam com uma nação regida pela ordem e progresso, livre da influência política da corte e da burocracia imperial. Eles viam na República a chance de maior participação e reconhecimento.

Cafeicultores de São Paulo: Buscavam uma maior autonomia para as províncias e menos intervenção do poder central em seus negócios, especialmente nas políticas econômicas e de imigração. Eles ansiavam por uma federação.

Intelectuais e liberais: Almejavam uma forma de governo mais democrática e igualitária (na teoria), inspirada nos ideais franceses e norte-americanos, que pusesse fim ao que consideravam um regime anacrônico.

Havia uma crença profunda de que a mudança de regime traria, quase que imediatamente, a solução para os problemas sociais e políticos do país, inaugurando uma era de grandeza e justiça. A República era, acima de tudo, uma promessa de futuro.

O Que se Tornou no Brasil

A "República dos Sonhos" rapidamente se transformou na República Real, um processo lento, complexo e, muitas vezes, doloroso.

A primeira fase, a República da Espada (governadas por militares), deu lugar à República Oligárquica (Política do Café com Leite), onde a força política e econômica das elites agrárias, especialmente de São Paulo e Minas Gerais, dominou o cenário.

A "Democracia": O voto, apesar de ser um símbolo republicano, permaneceu restrito por muito tempo. O clientelismo e o voto de cabresto se tornaram as marcas da participação popular, mostrando que a igualdade sonhada não se traduziu na prática para grande parte da população.

O "Progresso": Embora o Brasil tenha se desenvolvido economicamente, a concentração de renda e as desigualdades regionais persistiram. A abolição da escravidão, ocorrida no ano anterior, não foi acompanhada de políticas de integração, e a marginalização social foi a regra para milhões.

A "Ordem": Foi frequentemente garantida à custa da repressão a movimentos populares e revoltas, demonstrando que a Ordem positivista era prioritária sobre o Progresso social.

A Dívida da República com a Igualdade

Mais de um século depois, o 15 de novembro carrega o peso de uma utopia ainda incompleta. O grande desafio da República no Brasil reside, hoje, na persistência de chagas sociais que deveriam ter sido erradicadas pelo ideal de um governo para todos.

A herança da escravidão e do sistema colonial é evidenciada pelo trabalho análogo ao escravo que, alarmantemente, ainda é flagrado em vastas regiões do país, do campo às grandes cidades. Da mesma forma, o racismo estrutural continua a negar a dignidade, as oportunidades e a segurança a milhões de cidadãos, provando que a promessa de igualdade de 1889 não alcançou a população negra, que deveria ser a maior beneficiada pela mudança de regime pós-abolição.

Além disso, a violência contra a mulher — um reflexo profundo de uma sociedade ainda marcada pelo machismo e pela desigualdade de gênero — insiste em ser uma das maiores falhas do Estado em garantir a segurança e a cidadania plena a metade da população.

Hoje, a República no Brasil é um sistema que consolidou a alternância de poder e o federalismo, mas que falhou, repetidamente, em assegurar a dignidade humana como pilar inegociável. O 15 de novembro é um lembrete constante da distância entre o ideal e a realidade. É a crônica de um país que continua a lutar para que os princípios de liberdade, igualdade e fraternidade – os mesmos que inspiraram os republicanos – se tornem, de fato, a experiência cotidiana de cada cidadão, livre da opressão, do preconceito e da violência.

"O Brasil trocou a coroa de um imperador pelo rodízio de elites, e o povo continuou como espectador da própria história."

Por Alcina Reis

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