01 de Abril, o verdadeiro dia cívico nacional


Se o Brasil fosse um país minimamente honesto consigo mesmo, o 1º de abril já teria sido transformado em data cívica nacional, com direito a solenidade, discurso oficial e talvez até emenda parlamentar para bancar a comemoração. Afinal, nenhuma outra data representa tão bem a alma pública do país quanto o velho e consagrado Dia da Mentira.

É quando o calendário, com uma sinceridade quase ofensiva, decide escancarar aquilo que por aqui já funciona em expediente integral. A mentira, no Brasil, não é desvio. É método. Não é acidente. É ferramenta de gestão, estratégia eleitoral, linguagem institucional e, em muitos casos, pré-requisito de sobrevivência política.

O mais curioso é que o 1º de abril ainda tenta manter ares de brincadeira, como se estivéssemos falando de trote inocente, pegadinha de escritório ou da velha piada do “ganhei na loteria”. Que nada. No Brasil, a mentira já deixou o jardim de infância faz tempo. Ela amadureceu, se profissionalizou, contratou marqueteiro, aprendeu media training e hoje circula de carro oficial, crachá no pescoço e sorriso de campanha.

Ela está no político que promete o que sabe que não vai cumprir, mas diz com convicção suficiente para parecer estadista. Está no governante que entrega pintura de meio-fio como se fosse revolução administrativa. Está na obra anunciada cinco vezes, inaugurada três, concluída nenhuma. Está no parlamentar que descobre “amor pelo povo” em ano eleitoral e amnésia administrativa no resto do mandato.

E também seria injusto concentrar toda a responsabilidade apenas nos palanques. A mentira brasileira prospera porque encontrou ambiente fértil. Cresce na plateia, floresce na torcida organizada, se multiplica nos grupos de mensagem e encontra abrigo confortável em parte de uma sociedade que já não exige verdade — exige apenas uma versão agradável ao próprio lado.

No Brasil contemporâneo, a verdade perdeu mercado. É áspera demais, exige contexto, cobra memória, pede coerência e, pior de tudo, obriga o cidadão a pensar antes de aplaudir. Já a mentira vem pronta, embalada, mastigada e servida com indignação sob medida. É mais leve, mais compartilhável e, sobretudo, mais útil para quem vive de fabricar inimigos e vender salvadores.

A política, claro, apenas aperfeiçoou esse ecossistema. Hoje já não se mente como antigamente, de forma artesanal e quase envergonhada. A mentira ganhou sofisticação tecnológica e status de narrativa. Não é mais “eu menti”; é “houve ruído de comunicação”. Não é mais contradição; é “mudança de contexto”. Não é mais enganação; é “reposicionamento”. O cinismo, no Brasil, virou linguagem administrativa.

E assim seguimos, um país inteiro atolado em versões, notas de esclarecimento, promessas recicladas, indignações terceirizadas e discursos tão ensaiados que às vezes a única coisa espontânea é o vexame.

Talvez por isso o 1º de abril nem provoque tanto constrangimento assim. Para boa parte da classe política, é só mais uma terça, quarta ou quinta-feira de trabalho. Nada de extraordinário. A agenda segue normal: anunciar, negar, desmentir, relativizar, culpar o adversário e, se der tempo, posar para foto ao lado de alguma obra inacabada.

No fundo, o Dia da Mentira no Brasil não é uma exceção no calendário.

É apenas a única data do ano em que o país tem a delicadeza de admitir, ainda que por brincadeira, o próprio método de funcionamento.

E talvez aí esteja a ironia mais amarga de todas: entre tantas mentiras oficiais, o 1º de abril acaba sendo uma das raras verdades nacionais.

Por Alcina Reis

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