“Quando o ídolo vira pedra no sapato”

| Créditos: Ilustração: Marian Kamensky Cartoons

Não faz muito tempo, houve uma disputa acirrada por um lugar na comitiva de parlamentares brasileiros que foram prestigiados pelo pelotão de Donald Trump. Parecia um evento celestial, um “retorno de Jesus à Terra”, com direito a discursos inflamados e olhos brilhando de admiração. O republicano excêntrico e falastrão era o herói de uma direita brasileira que enxergava nele um farol de conservadorismo e força.

Mas o tempo passou, e o jogo virou. Agora, os mesmos entusiastas estão de olhos arregalados e barbas de molho. Trump, o ícone do protecionismo, decidiu taxar a importação de aço e alumínio em 25%. O Brasil, grande exportador, sentiu o golpe. O líder da bancada do agronegócio, Pedro Lupion, até tenta relativizar. Diz que há bravatas no jogo político, que Trump faz movimentos estratégicos para barganhar melhores negociações. Mas, no fundo, o medo é evidente e justificável. E se amanhã for a vez da soja? Da carne? Dos grãos?

E não ficou só nisso. Em um gesto nada amistoso, os Estados Unidos suspenderam uma parceria de prevenção a incêndios florestais no Brasil. O programa, que treinava brigadistas e ajudava a conter o avanço do fogo, foi interrompido por um decreto de Trump, no seu ímpeto de cortar laços com a assistência internacional.

O cenário mudou, a ficha caiu para alguns. O extremismo, seja à direita ou à esquerda, revelou construir pontes – normalmente, levanta muros. 

No frenesi da idolatria, poucas pessoas sabem que Trump sempre jogou para o próprio tempo. Agora, aqueles que aplaudiram sua ascensão com euforia veem às voltas com os custos de sua imprevisibilidade.

Afinal, pode até ser que o diabo nem sempre é tão feio quanto se pinta, não é o caso – mas pode ser bem mais esperto do que se imagina.

Por Alcina Reis

Jornalista Alcina Reis | Créditos: Arquivo pessoal

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