A persistência deste crime não me sai da memória!

| Créditos: Divulgação


   Em 1996, o Pantanal já ardia em chamas, já vinha sendo mutilado, envenenado e explorado de forma descarada e cruel, mas parte do mundo fingia não ver. Movido por uma revolta que me queimava no peito tanto quanto as chamas que consumiam a vegetação, sentei-me diante do papel para dar voz ao nosso bioma. Queria denunciar as feridas abertas da nossa terra, as queimadas criminosas, as invasões de terras protegidas, o lodo sufocante do assoreamento dos rios, a poluição que envenenava as águas e o comércio cruel e silencioso do tráfico de animais silvestres. Era o nosso ecossistema correndo o risco real de extinção.
    Eu precisava chocar, precisava fazer as pessoas pararem e olharem para aquela situação absurda e covarde! Mas, eu não queria o caminho mais fácil e doloroso e também não queria mostrar esse desastre através das imagens explícitas de “animais em estado de putrefação”. Não queria também, mostrar carcaças carbonizadas ou bichos engaiolados e nem “aves caídas no chão”, pois isso, no meu entender, pareceria um insulto à própria dignidade daquela natureza. A dor já era óbvia demais e eu queria mesmo, é que as pessoas enxergassem a perda do tempo e a necessidade de uma ação urgente diante daquela destruição.
Foi aí que busquei refúgio na arte. Fiz uma releitura de “A persistência da memória”, o famoso quadro de Salvador Dalí. Na minha mente, os relógios derretidos do mestre surrealista não marcavam apenas a relatividade do tempo, mas sim o tempo que estava escorrendo das nossas mãos. Era o tempo do Pantanal que derretia sob o calor do fogo e da negligência humana. Cheguei até rabiscar uma imagem de uma forma até arcaica, pois não sou muito bom na arte de desenhar. 
Três décadas se passaram e hoje, com o auxílio da Inteligência Artificial, uma tecnologia que não era tão acessível naquele ano, consigo resgatar e materializar a força daquela mensagem. E fiz questão de compartilhar essa reflexão com vocês agora, não apenas para reviver o passado, mas sim para constatar que, infelizmente aquele meu grito de 1996 continua ecoando de forma urgente e dolorosamente atual. E a pergunta que fica é: Até quando essa falta de amor e de respeito pela natureza, vai PERSISTIR? Ou será que a intenção mesmo é fazer com que o Pantanal vire apenas uma MEMÓRIA.

@percivallelogomes
(escritor do livro O Pantanal em 4 Tempos)

Compartilhe: