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Nacional

Jogo do bicho rola solto nas barbas do poder

Reportagem flagrou contraventores atuando há poucos metros de onde despacham Bolsonaro e Ibaneis. Infração também ocorre no Congresso

Via Redação | Publicado por Redação | às 06:17:21

Amanhã mal começa e um aglomerado de pessoas se forma na parada de ônibus às margens da Via N1 do Eixo Monumental, a apenas 160 metros do Palácio do Planalto. Entre servidores que chegam para trabalhar na Esplanada dos Ministérios e ambulantes vendendo café da manhã, uma movimentação chama a atenção. Sentada em um banquinho de plástico, uma mulher esconde na bolsa elevada quantia de dinheiro em espécie, além de uma máquina semelhante às de cartão de crédito e débito. O equipamento, no entanto, é usado por ela para outro fim: registrar apostas no jogo do bicho.

Apesar de ilegal, a prática tem clientes fiéis. Das 7h às 10h, é intenso o vaivém de interessados em participar na jogatina na porta da sede do Poder Executivo Federal, onde despacha o presidente da República, Jair Bolsonaro (PSL). Democrático, o jogo registra apostas de rodoviários a funcionários públicos da alta cúpula do governo.

Conforme apurado site Metrópole, a mulher explica que quanto maior o valor apostado, maior o prêmio. “Se você jogar um real e ganhar no primeiro prêmio, você pode levar R$ 2,5 mil”, revela à reportagem, sem saber que estava sendo filmada.

Identificados pelos crachás pendurados nos pescoços, os jogadores deixam com a bicheira quantias diversas. De R$ 0,50 a R$ 20, não há limite máximo nem mínimo para o valor jogado. Aqueles que não têm familiaridade com o jogo, logo recebem orientação da contraventora: “Você me fala o quanto quer jogar. Pode apostar R$ 0,50, R$ 1…”.

O primeiro resultado sai às 11h30 e ela assegura que para receber o prêmio em dinheiro é preciso procurá-la no horário indicado. A entrega da quantia é feita ali mesmo, “no meio da rua”. “Se você quiser conferir se ganhou, vem aqui comigo e confere. Ou em qualquer outro lugar que faz bicho. Mas, para receber o prêmio, é só comigo”, explica.
É nos fundos do Bloco F, onde está uma das sedes do Ministério da Economia, que funciona um esquema que já virou negócio de família. Conhecidos na região, pai e filho administram e registram as jogatinas debaixo de uma mangueira, no estacionamento da pasta. Segundo pessoas ouvidas pela reportagem, o local escondido não é por acaso. A região tem sido alvo de recentes batidas policiais, levando os contraventores a ficarem “mais atentos”.

A ousadia dos contraventores não está restrita aos arredores da Presidência da República, sendo possível observar pontos de jogatina em toda Esplanada dos Ministérios. Durante a semana, o Metrópoles flagrou a atividade a pleno vapor no estacionamento de ministérios, nos anexos da Câmara dos Deputados e no Palácio do Buriti.

Negócio de família

Apesar de escondido, o ponto recebe muitos apostadores. Uma delas, flagrada pela reportagem, diz ser frequentadora do local há pelo menos quatro meses. Mesmo apostando assiduamente, ela revela ter ganhado poucas vezes. “Nem me fala de perda, porque eu já perdi tanto. Ganhei duas vezes: R$ 300 foi o maior prêmio que ganhei até hoje”, conta.

Não muito distante dali funciona outro ponto, entre os Blocos B e C. Também no estacionamento e sem chamar a atenção, um homem registra os jogos dentro de um Ford Fiesta sedan de cor preta. Compete aos flanelinhas e lavadores de carro que ficam no local levar os apostadores ao contraventor.


A estratégia de ficar entre os vendedores é a mesma no estacionamento do Palácio do Buriti, onde se concentram grande parte dos servidores públicos do DF. Escondida em uma barraca de frutas, uma bicheira é a responsável pelas apostas coletadas em toda região. Ela atua dentro do estabelecimento, com a autorização da proprietária do comércio.


Em nota, a Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal informou que combate a ilegalidade e garante ter havido redução de 23,8% nos registros do jogo de azar quando a comparação é feita com os primeiros sete meses deste ano e o mesmo período do ano passado.
Considerada contravenção penal pela Lei nº 3688, o jogo do bicho não é novidade na capital federal e atormenta as autoridades policiais há muito tempo. Entre os personagens icônicos apontados como líderes de organizações criminosas responsáveis por administrar por anos a rede de esquema ilícito está Carlinhos Cachoeira – preso pela primeira em operação da Polícia Federal realizada em fevereiro de 2012.


O crime organizado voltou a ser combatido pelas autoridades policiais do DF um ano depois. Em 2013, a Polícia Civil realizou megaoperação para desarticular o esquema do jogo do bicho. A ação policial, intitulada de Armadilha, resultou na apreensão da maior quantia em dinheiro vivo da história da capital federal. Os R$ 3,5 milhões estavam guardados em cofres na casa de homens apontados como os maiores bicheiros da capital do país.


Na época, o esquema envolvia a realização de jogos no Lago Sul, em Sobradinho e nas Asas Sul e Norte. Um dos locais em que os agentes cumpriram mandado ficava no Setor de Mansões Dom Bosco, no Lago Sul, região nobre de Brasília.


Ainda no coração de Brasília e estrategicamente posicionados entre os comerciantes, bicheiros se camuflam nas barracas de comida do estacionamento do Anexo IV da Câmara dos Deputados. O objetivo é evitar chamar atenção das autoridades policiais e, ao mesmo tempo, angariar mais apostas graças ao grande fluxo de pessoas que visitam os comércios. Alguns, inclusive, têm “parceria” com os lojistas para permanecerem nos pontos.


Combate ao jogo

Na época, Cachoeira foi acusado pela PF de comandar jogos de azar em Goiás e no Distrito Federal. Os esquemas contavam com apoio e envolvimento de figuras políticas. Nove meses depois, em outubro, ele deixou o presídio da Papuda após conseguir alvará de soltura junto ao Tribunal de Justiça do DF e dos Territórios (TJDFT). No mesmo ano, a Justiça condenou o bicheiro a 39 anos de prisão pelos crimes de corrupção ativa, violação de sigilo e formação de quadrilha. O bicheiro voltou a ser preso em dezembro do mesmo ano, em 2016 e em maio de 2018.

De acordo com as investigações, o grupo chegava a faturar R$ 3 milhões por mês com a contraversão. A Polícia Civil pediu à Justiça o bloqueio das contas e dos veículos apreendidos. O inquérito que investigou o caso se transformou em ação penal. No total, sete suspeitos foram indiciados, tornaram-se réus e aguardam julgamento em liberdade.


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